sábado, 30 de março de 2013

sobre a hipocrisia das religiões, de outras formações e dos anti-hipócritas

"hipócrita" era na Grécia antiga, o ator com a sua máscara. a "persona" em latim. que deu em Português "pessoa". todos nós trazemos a nossa máscara (persona). todos nós somos velhos atores gregos (hypocrithés / υποκριτικές). não é possível viver em sociedade sem essa "persona". a Igreja Católica, a Anglicana, a Evangélica, a Política, os políticos e apolíticos, os de esquerda e de direita, os crentes, os agnósticos, os ateus e os anarquistas, os hetero, homo, bi e poli também a têm. e precisam dela. e, por que não dizê-lo, até lhes fica bem...
fica bem? claro que fica. caso contrário como distinguiríamos uns hipócritas dos outros?




foto: http://teatraio.wordpress.com



quando os bispos falam contra a política


a Igreja Católica Portuguesa, ao contrário de outras, como a Igreja Ortodoxa de Chipre, por exemplo, já foi espoliada de quase tudo, talvez antes do tempo.


já pagou largamente os seus impostos: igrejas, conventos, foram transformados em hospitais, quarteis, edifícios de Câmaras Municipais, edifícios de governo e da Assembleia da República, liceus, pousadas, monumentos nacionais de visita "obrigatória", etc. 


e outros edifícios nem sequer foram aproveitados, cairam em ruinas. 
apesar disso, tem resolvido ou ajudado a resolver problemas, crises e insuficiências que caberia a outros resolver sem a sua ajuda. 
por isso, apesar de uma certa complacência e até cumplicidade que sempre tem mostrado em relação aos poderes, ou talvez por isso mesmo, quando diz que a política é insuportável e os políticos são incompetentes é porque a coisa está preta.





segunda-feira, 25 de março de 2013

a farmácia de serviço

em Faro. paro o carro em frente à farmácia de serviço.
saída do nada, uma velha aproxima-se da minha janela e conta uma estória. o marido morreu, ela vive na rua e passa mal. é diabética e outras coisas. se eu a podia ajudar. vou ao bolso. tiro as moedas, não muitas, que o tabaco leva-mas todas. diz que muito obrigado e faz menção de se ir embora. digo-lhe que vá com deus e corra tudo pelo melhor.
acendo um cigarro. a coisa cheira-lhe. volta para trás: "já agora, se me desse um cigarrinho...sou diabética, não devia fumar, não fumo muito, mas agora está-me a apetecer..."
deve ter jeito para a coisa. aborda o carro parado à frente do meu.
dois minutos depois, vejo uma nota de 5 euros sair do carro e ir ter à mão dela.


 .

ah, é claro: e a farmácia de serviço...
grande velhota!





quinta-feira, 14 de março de 2013

o bosão de Higgs

tenho dado imensas voltas à cabeça para descobrir o que tem o bosão de Higgs a ver com Deus [ou deus]. não descubro. o bosão é demasiado pequeno para se ver nele alguma coisa. e aposto que, a existir Deus [ou deus], teve que se arranjar sem o CERN, onde, com imensos milhões em moeda forte, se fabrica um efémero e raríssimo "bosão". 
é que eu confundo muito Deus [ou deus] com o próprio Universo. no que nem sequer sou original. porque, se é preciso arranjar alguma "coisa" que seja omnisciente, omnipotente e eterna, sem princípio nem fim, sem espaço nem tempo, criadora não criada, composta e geradora de todas as mudanças, não vejo necessidade de inventar outra coisa. basta contemplar o próprio Universo. a bem dizer, a nossa relação com esse Universo é que é o verdadeiro "cerne" da questão. o "bosão" vem depois. é feito no CERN, com imensos milhões em moeda forte. e além disso não serve para nada.

quinta-feira, 7 de março de 2013

a União Europeia e a limpeza de género

o Parlamento Europeu, que não tem mais que fazer, vai levar a votos uma proposta de "proibição de todas as formas de pornografia nos meios de comunicação e na publicidade do turismo sexual".
banir toda a pornografia? pois claro.
e o que é "pornografia"? e eis como uma pergunta tão simples e inocente nos conduz a respostas do tipo "eliminação de estereótipos de género na UE. promover a igualdade de género e eliminação de estereótipos de género", "discriminação da mulher na publicidade" e - não esqueçamos -, àquelas iniciativas linguísticas tolas, com cobertura académica e tudo, mestrados e doutoramentos, de eliminar a diferenciação de género na linguagem oficial. 
está certo. ai Constantinopla, Constantinopla, como tu discutias o sexo dos anjos, enquanto os turcos te faziam o cerco... 
agora, Estrasburgo, Estrasburgo, decretas que somos todos anjos. e sem sexo, que é por causa. encantados.

 

então, qual vai ser a nova onda, o novo grafismo: banir a imagem humana e dos seres vivos e refugiar-nos nos motivos geométricos? 
está bonita a coisa...


os reformados

está muito na moda das ideias feitas - se é que são ideias -, quer dizer, do politicamente correto, dizer agora em abono dos reformados, e para justificar a sua pensão, que eles são o sustento dos familiares desempregados e essas baboseiras coisa e tal. ora essa, que estupidez, os reformados não têm vida própria, não contribuiram para a ter? os reformados são alguns marginais endinheirados e inúteis que não merecem o que têm? os reformados são alguma caixa de esmolas? os reformados são alguns cadáveres adiados? os reformados são alguns institucionalizados a quem se despersonaliza às claras e se rouba às escuras? não, os reformados têm um direito construido por eles próprios e que ninguém tem o direito de lho tirar. e têm tanta obrigação de sustentar os familiares desempregados como o têm os que não são reformados. essa justificação para a pensão, não. 


eu exijo a minha pensão intacta porque é minha, porque contribuí para ela. o que faço com ela é da minha conta.
ponto final.


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

contra um deus que não existe


sou um católico nostálgico. mesmo que Deus esteja morto ou em doença terminal, mesmo que seja um órfão de um pai que simplesmente nunca existiu, não posso por de lado a educação, a narrativa e os princípios que tive. não posso sequer ignorar que esse meu deus, terminal ou até morto, tem  neste mundo um representante simbólico vivo. um homem como eu, mas simbolicamente muito mais que eu. outros acreditarão em pais simbólicos de outra natureza. outros decidiram matar todos os pais, reais ou simbólicos, porque ainda não são crescidos o suficiente para serem pais de verdade. quer dizer, ainda não são suficientemente mestres para poderem matar o seu mestre dentro de si. e por isso odeiam tudo o que lhes cheire a um pai. eu não. seja esse pai real ou simbólico, morto ou em doença terminal, estou órfão.
está tudo em crise. pois está. e, por isso mesmo, esse pai faz cá imensa falta.


eu sou assim, e sinto-me assim. mas ao menos não ando, como muitos que por aí vejo, numa luta de vida ou de morte contra um deus que não existe.