quinta-feira, 6 de junho de 2013

lamentação em dó menor

às vezes apetece-me dizer não
mas é tão inútil dizer não
as coisas acontecem na mesma
ou desacontecem se tiver que ser
que em vez de dizer não
vou aprender a nadar
eu já sei nadar
mas é que aprendi a nadar
num rio mau
e ganhei medo da água
de jeito que nem sim, nem nim, nem não
dlão, dlão.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

adoções

na adoção em geral ou na coadoção em particular há uma questão fundamental: dizem os adotantes e candidatos que a discussão é em torno dos direitos ou vantagens das crianças adotadas, quer dizer, de alguém que não pode ou não deixam pronunciar-se. logo, não tem nada que ver com os interesses de mais ninguém senão com os de quem quer adotar. tudo o resto são construções retóricas. porque, além do mais, há à partida uma enorme questão: a seleção do adotado em detrimento dos que ficam por adotar.
que dizem eles, os adotantes, aos que deixam sem adoção: és feio? não gosto de ti?
é que no mundo dos pais não se escolhem os filhos. fazem-se.
por isso, não me lixem com essa conversa dos direitos e da felicidade da criança.
seja qual for a constituição do casal adotante, a coadoção é uma leviandade. vincula-se um ser humano em desenvolvimento, uma entidade vitalícia, a uma entidade mais ou menos efémera e transitória a que se chama casal. ou seja, sempre que o casal se desfaz e cada membro adotante refizer a sua vida, a pobre criança vai juntando ao seu currículum vitae mais um pai ou uma mãe.
o que em termos de direitos e felicidade da criança é ótimo e reconfortante. quantos mais pais e mães tiver, melhor para ela.
não me lixem com essa conversa dos direitos e da felicidade da criança. porque o que está em causa não é a felicidade nem os direitos da criança adotada, mas sim a felicidade e os direitos do casal adotante enquanto dure.
e já nem quero falar dos casos em que os pais adotivos, fartos ou não satisfeitos com a aquisição que fizeram, devolvem a criança adotada à proveniência. é claro que isso é no interesse da criança e da sua felicidade.
seja qual for a constituição do casal, a coadoção é como por uma casa ou um carro "em nome dos dois". só que a criança não é uma casa nem um carro. não é uma coisa nem um bem transacionável. nem alienável.

e, depois, uma coisa é discutir os direitos e a proteção das crianças, outra coisa, muito diferente é discutir a igualdade de direitos das maiorias e das minorias, quer dizer, as heterofilias e as homofilias, as heterofobias e as homofobias. não se misture o que não é misturável, nem se use as crianças como armas de arremesso. faça cada qual sua coisa, de acordo com o seu gosto, desejo, inclinação, parcerias ou destino. mas não invoquemos as crianças em vão.

não me lixem.



sobre o insulto

o insulto, quando bem feito, pode ser uma arte e tornar-se um meme. nem todos os insultos são uma arte, nem todos os insultos se tornam meme. e dos que se tornam meme, a maioria passa rapidamente de moda e tornam-se chatos, como sucede com a imensa maioria dos memes em geral. mas alguns têm tal força natural que atingem o ponto de viragem (tipping point). a grande questão é saber se a força do insulto vem do insulto em si ou das particulares caraterísticas do(a) insultado(a). porque a verdade é que quando o(a) insultado(a) não é insultável o insulto não resulta. nem sequer se torna meme.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

os vândalos

matam a civilização, a cultura, o bem-estar.
matam à fome, à miséria e à humilhação.
destroem a honra, os sonhos e as certezas.
arrasam tudo por gosto de ver sofrer,
de ver cair, de destruir, de liquidar.
não deixam pedra sobre pedra.
eles são os vândalos do século XXI.
e diante de coisa tão medonha,
as putas que os pariram riem-se
para não chorarem de vergonha.

a Europa que não sabemos ser

olhamos para a Europa como um colonialista mau, que manda em nós e nos oprime. esquecemos que a Europa somos nós que a fizemos. não fomos conquistados nem ocupados. assinámos os tratados. somos parte. por isso, a Europa não é uma entidade terceira. o problema não está no colonialismo europeu, está na nossa mentalidade de povo colonizado. não pensamos em ser um motor de mudança da Europa, estamos à espera que a Europa mude por por si mesma, por obra e graça do Espírito Santo. a questão é que temos de ter líderes à altura do momento. na Europa? claro. quer dizer, em Portugal. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

tragédias e arbitrariedades

todos os dias me espanto ainda com a capacidade que este governo tem de passar por cima de tudo e de todos, de normas e leis, de contratos, costumes e constituições. um governo ao sabor dos caprichos e dos azeites, que não olha a meios para atingir fins - que ninguém, nem ele, sabe quais são. vivemos um momento de tragédia, de arbitrariedade, de insensibilidade absoluta. que morramos, que passemos fome, que não tenhamos com que alimentar e educar os filhos, pouco lhes importa, nem pouco nem muito, nada. somos governados por robôs em forma de gente. por números e por modelos de números, por aprendizes de matemática e de economia. tudo ao jeito da fina finança, dos autores da crise, da crise criminosa que nos puseram em cima, e que pagam não com o dinheiro deles, mas com o nosso. e ainda se atrevem a culpabilizar-nos, a atirar para cima de nós o labéu de termos vivido acima das nossas possibilidades. e o incrível é que há tansos que engolem e aceitam. talvez ainda não tenha chegado a vez deles. ou talvez sejam apenas tansos. ou, quem sabe, simplesmente não sejam pessoas normais.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

o sentido das coisas

quando eu era miúdo, aí pelos meus 4-5 anos, acreditava que havia 5 tipos de pessoas: velhinhos e avós, pais e tios, irmãos e primos mais velhos, crianças como eu e, finalmente, os bebés. cada qual era assim, estava assim e pronto. o modelo funcionava muito bem naquela ausência de tempo do paraíso infantil. uma vez por outra morria um velho ou um pai ou um tio ou um moço ou um bebé (um anjo, comose dizia). mas tudo tinha uma explicação satisfatória para o modelo: era uma doença, um afogamento, uma queda, um acidente estúpido, um ataque do coração ou da cabeça, sempre uma coisa que, sendo excecional e fazendo sentido, deixava a boa ordem funcionar intacta.
o modelo foi-se adaptando ao longo da vida, com as subidas sucessivas ao escalão seguinte. cada subida de escalão era um galão a mais na farda.
até que os velhos da minha casa começaram a morrer, um por um.
aí compreendi que o modelo estava errado e que o sentido que as coisas fazem é não fazerem sentido nenhum.
finalmente, que talvez não seja preciso que as coisas façam sentido. só temos que as compreender e aceitar.