terça-feira, 11 de junho de 2013

discurso sobre as lamentações e o otimismo

há uma parte das lamentações que é pura lucidez. e há uma parte do otimismo que é pura alienação. depende do caso.

sábado, 8 de junho de 2013

o lar

um vetusto e venerável "lar da terceira idade". vejo-os, os velhos ("idosos", como lhe chamam), entregues, total e passivamente, aos cuidados de terceiros. não vão para a rua, como as pessoas propriamente ditas. não vão às compras, como as pessoas normais, não vão, simplesmente, passear à vontade pelas ruas, como eu. nem sequer estão doentes como os doentes que a gente conhece. estão ali. não têm amigos, são todos amigos à força. não têm família, a família deles é aquela coisa. hesito em compreender onde estou: numa cadeia, num hospital, num convento de clausura. num manicómio. qualquer das hipóteses serve. a porta está fechada, há um aparato clínico e um ritmo litúrgico. há um claustro central. quem lá está vai à missa, reza o terço, encomenda-se a deus e aos santos, para um agora-nunca-e-sempre e para uma hora cada vez mais próxima. confessam os seus crimes, as suas maleitas, o seu diagnóstico: 70, 75, 80, 93 anos de idade. encolhem os ombros e sorriem. aguardam o dia da execução da sentença. não há recurso. e, sobretudo, fazem o que lhes mandam.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

metafísica

o conhecimento do conhecimento
é um quadrado
com um conhecimento de lado
e o conhecimento desse conhecimento
é um cubo
por onde teimosamente subo
acontece que chego a meio
e caio
catrapum em cheio
desmaio
mas quando acordo insisto
não resisto.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

lamentação em dó sustenido

tenho mais sonhos
do que é permitido por lei
de jeito que passo a vida
a pagar multas
por sonhar demais
não são sonhos desses
são destes
que fazem de mim um sonhador

lamentação em dó menor

às vezes apetece-me dizer não
mas é tão inútil dizer não
as coisas acontecem na mesma
ou desacontecem se tiver que ser
que em vez de dizer não
vou aprender a nadar
eu já sei nadar
mas é que aprendi a nadar
num rio mau
e ganhei medo da água
de jeito que nem sim, nem nim, nem não
dlão, dlão.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

adoções

na adoção em geral ou na coadoção em particular há uma questão fundamental: dizem os adotantes e candidatos que a discussão é em torno dos direitos ou vantagens das crianças adotadas, quer dizer, de alguém que não pode ou não deixam pronunciar-se. logo, não tem nada que ver com os interesses de mais ninguém senão com os de quem quer adotar. tudo o resto são construções retóricas. porque, além do mais, há à partida uma enorme questão: a seleção do adotado em detrimento dos que ficam por adotar.
que dizem eles, os adotantes, aos que deixam sem adoção: és feio? não gosto de ti?
é que no mundo dos pais não se escolhem os filhos. fazem-se.
por isso, não me lixem com essa conversa dos direitos e da felicidade da criança.
seja qual for a constituição do casal adotante, a coadoção é uma leviandade. vincula-se um ser humano em desenvolvimento, uma entidade vitalícia, a uma entidade mais ou menos efémera e transitória a que se chama casal. ou seja, sempre que o casal se desfaz e cada membro adotante refizer a sua vida, a pobre criança vai juntando ao seu currículum vitae mais um pai ou uma mãe.
o que em termos de direitos e felicidade da criança é ótimo e reconfortante. quantos mais pais e mães tiver, melhor para ela.
não me lixem com essa conversa dos direitos e da felicidade da criança. porque o que está em causa não é a felicidade nem os direitos da criança adotada, mas sim a felicidade e os direitos do casal adotante enquanto dure.
e já nem quero falar dos casos em que os pais adotivos, fartos ou não satisfeitos com a aquisição que fizeram, devolvem a criança adotada à proveniência. é claro que isso é no interesse da criança e da sua felicidade.
seja qual for a constituição do casal, a coadoção é como por uma casa ou um carro "em nome dos dois". só que a criança não é uma casa nem um carro. não é uma coisa nem um bem transacionável. nem alienável.

e, depois, uma coisa é discutir os direitos e a proteção das crianças, outra coisa, muito diferente é discutir a igualdade de direitos das maiorias e das minorias, quer dizer, as heterofilias e as homofilias, as heterofobias e as homofobias. não se misture o que não é misturável, nem se use as crianças como armas de arremesso. faça cada qual sua coisa, de acordo com o seu gosto, desejo, inclinação, parcerias ou destino. mas não invoquemos as crianças em vão.

não me lixem.



sobre o insulto

o insulto, quando bem feito, pode ser uma arte e tornar-se um meme. nem todos os insultos são uma arte, nem todos os insultos se tornam meme. e dos que se tornam meme, a maioria passa rapidamente de moda e tornam-se chatos, como sucede com a imensa maioria dos memes em geral. mas alguns têm tal força natural que atingem o ponto de viragem (tipping point). a grande questão é saber se a força do insulto vem do insulto em si ou das particulares caraterísticas do(a) insultado(a). porque a verdade é que quando o(a) insultado(a) não é insultável o insulto não resulta. nem sequer se torna meme.