terça-feira, 23 de julho de 2013

nós pagamos

ouve-se e lê-se, cada vez mais, a lamúria: "nós é que pagamos". pois é, "nós" pagamos tudo: pagamos o vencimento do Presidente da República, pagamos o vencimento do primeiro-ministro, o vencimento do vice-primeiro-ministro, o vencimento dos ministros, dos secretários de estado, dos adjuntos, dos consultores, dos funcionários governamentais, dos diretores gerais e funcionários das direções gerais, dos institutos, dos funcionários dos institutos, dos deputados, dos funcionários do Parlamento, dos presidentes da câmaras municipais, dos vereadores, dos funcionários das autarquias, dos funcionários públicos em geral, dos polícias e dos militares. com a ajuda "deles" todos também, já se vê. e pagamos ainda os funcionários privados e respetivas empresas empregadoras, pois que, sem o "nosso" dinheiro e o "deles", ninguém comprava nada e não haveria emprego, nem empresa nem salário. moral da estória: "nós" é que temos o dinheiro. e pagamos as multas e despesas de todos, incluindo as nossas. "nós" somos assim. "nós" e "eles", que também fazem parte de "nós". pois, aí está: sem "nós" não havia país.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

o VVIAO

não tenho a certeza se o vetusto e venerando imperador das areias do oeste (VVIAO) existe realmente ou é invenção minha. provavelmente, é invenção minha a partir da realidade do império das areias do oeste. algo como nos sonhos. mas há sonhos que incomodam só de pensar neles. 
o VVIAO tinha um fetiche por números e por mercados. não havia número nem mercado que ele não conhecesse, somasse, dividisse, subtraisse e multiplicasse. dizem que não sabia fazer outras contas, até porque essas eram suficientes e chegavam muito bem. mas passava o tempo todo a juntar números com mercados e mercados com números, regando-os às vezes com orçamento "do" Estado, tirando daí interessantes augúrios e auspícios. e quando queria saber se devia manter um vizir ou um vice-vizir ou ambos, ou chamar todos os potenciais vizires e atá-los num molho, ele ia aos números, mercados e orçamentos "do" Estado, de onde concluía por A mais B que se assim não fosse teria de ser de outra maneira. e assim era sempre. 
de jeito que os súbditos do VVIAO já nem contavam com outra cousa. queriam é que o VVIAO pirasse de vez. 
porém, o drama do vetusto e venerando imperador das areias do oeste era haver uns quantos súbditos que acreditavam que ele era o infalível, omnisciente e omnipotente filho de deus vivo. sobretudo quando fazia asneiras que mais ninguém entendia. 
no império das areias do ocidente houve uma crise financeira muito grave. não se conhecem bem as causas, embora tudo apontasse para manobras especulativas de agentes da alta casinância. os casinos do império começaram a falir, um detrás de outro. então o vetusto e venerando imperador empossou um conselho de alvazis chefiados por um vizir. trataram logo de botar as culpas ao vizir anterior e de nomear de entre eles um alvazil das contas furadas. o alvazil das contas furadas começou por tributar todos os súbditos, na intenção de recompor os casinos e pô-los a funcionar de novo o melhor possível. depois de todos os súbditos ficarem sem nada, o alvazil das contas furadas descobriu que tinha feito ainda pior do que a crise e, antes que lhe extraissem cirurgicamente a cabeça, operação que ele detestava, foi-se embora ou alguém o mandou. a confusão instalou-se e um alvazil, mais esperto e inteligente que todos os outros juntos, tornou-se vice-vizir com mais poderes que o vizir propriamente dito. aí o imperador desorientou-se, ele que era imperador das areias do ocidente e não do oriente. furioso, atirou com tudo ao ar e pum! 
alguns súbditos começaram a achar que o imperador não estava bom da cabeça e o melhor era ele resignar.

o vetusto e venerando imperador das areias do oeste, tendo verificado que a situação do império era uma catástrofe que desabaria não só sobre o império mas também sobre ele e a sua corte mais próxima, meteu a venerável corte mais próxima no armário imperial e ordenou a todos os nobres da corte, dos mais próximos aos menos afastados, que constituissem um conselho de vetustos alvazis e de um venerando vizir sénior, de forma a que os súbditos se esquecessem, no prazo de um ano, de todas as incompetências do conselho anterior e da venerável corte mais próxima. "talvez assim se consigam perpetuar no poder e salvaguardar o meu reinado, a memória dos súbditos é de curto prazo" - pensou. ou, dadas as circunstâncias pessoais do vetusto e venerando imperador da areias do oeste, alguém pensou por ele.

o pior é que nada disso aconteceu. e o que aconteceu verdadeiramente ninguém sabe ao certo. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

do otimismo possível

é verdade que hoje está tudo pior que ontem. mas, em compensação, está tudo hoje bem melhor do que amanhã. é preciso manter o otimismo e a confiança no presente. e sobretudo muita confiança no passado.

terça-feira, 11 de junho de 2013

o país dos 600 euros ou menos

de repente, Portugal tornou-se um país exclusivo para quem recebe menos de 600 euros por mês. eles não têm cortes, não pagam impostos, não pagam taxas moderadoras, nada. ninguém lhes toca. claro, tudo bem, tudo aparentemente justo. mas o problema é que um país assim é um país perigoso. porque quem recebe menos de 600 euros por mês por alguma razão não recebe mais. e são esses que fazem facilmente maiorias governativas. está tudo pensado...


discurso sobre as lamentações e o otimismo

há uma parte das lamentações que é pura lucidez. e há uma parte do otimismo que é pura alienação. depende do caso.

sábado, 8 de junho de 2013

o lar

um vetusto e venerável "lar da terceira idade". vejo-os, os velhos ("idosos", como lhe chamam), entregues, total e passivamente, aos cuidados de terceiros. não vão para a rua, como as pessoas propriamente ditas. não vão às compras, como as pessoas normais, não vão, simplesmente, passear à vontade pelas ruas, como eu. nem sequer estão doentes como os doentes que a gente conhece. estão ali. não têm amigos, são todos amigos à força. não têm família, a família deles é aquela coisa. hesito em compreender onde estou: numa cadeia, num hospital, num convento de clausura. num manicómio. qualquer das hipóteses serve. a porta está fechada, há um aparato clínico e um ritmo litúrgico. há um claustro central. quem lá está vai à missa, reza o terço, encomenda-se a deus e aos santos, para um agora-nunca-e-sempre e para uma hora cada vez mais próxima. confessam os seus crimes, as suas maleitas, o seu diagnóstico: 70, 75, 80, 93 anos de idade. encolhem os ombros e sorriem. aguardam o dia da execução da sentença. não há recurso. e, sobretudo, fazem o que lhes mandam.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

metafísica

o conhecimento do conhecimento
é um quadrado
com um conhecimento de lado
e o conhecimento desse conhecimento
é um cubo
por onde teimosamente subo
acontece que chego a meio
e caio
catrapum em cheio
desmaio
mas quando acordo insisto
não resisto.