quarta-feira, 16 de outubro de 2013

o cume

o meu tio cónego - que deus tenha! - era uma pessoa brilhante e de finíssimo humor. fazia graça de tudo e acima de tudo gostava de brincar com as potencialidades da Língua para dizer coisas com vários sentidos. a despesa dos significados menos convenientes de uma frase ficava sempre por conta de quem a ouvisse. como se diz em francês, "honni soit qui mal y pense".
fazia diariamente, manhã cedo, uma viagem de elétrico (ou bonde, como também gostava de dizer) para ir rezar missa num convento de freiras. no percurso, passava pela casa que tinha acabado de mandar construir. era um casarão implantado a meio de um acentuado declive, à beira da estrada por onde passava o elétrico. dependendo do lado da estrada em que se caminhasse, podia muito bem nem sequer se lhe ver o telhado.
uma bela manhã, lá ia ele, desta vez acompanhado de um amigo formal, um poderoso engenheiro da elite dos edis da cidade.
o amigo resolveu comentar:
- ó senhor cónego, a sua casa está bem escondida. quem vai de elétrico mal lhe vê o *cume...
e a resposta pronta e séria do meu tio:
- e quem vai de elétrico já tem muita sorte, senhor engenheiro. porque quem vai a pé nem o cu*me vê...

terça-feira, 15 de outubro de 2013

a espada

lembro-me mais dela quando era nova. acabara de sair do sanatório. era uma mulher afável, doce, amorosa, meiga. tinha aquela bonomia e agilidade própria dos tuberculosos tratados com isoniazida - a mãe dos antidepressivos modernos. 
era muito querida dos sobrinhos. nunca vinha sem uma prenda, por pequena que fosse. lembro-me da prenda mais maravilhosa que recebi: um frasquinho na forma de carro. adorava aquele brinquedo. outra coisa que eu adorava era quando ela trazia nozes. dava um prazer imenso parti-las com pedras e comê-las à dúzia. 
um dia disse que havia de me trazer uma espada. e eu cismava, cogitava, sonhava para que raio queria eu uma espada. na época havia umas espadas de celuloide com que se abria as folhas dos livros que vinham unidas umas às outras, ora de lado, ora em cima. mas achava a prenda, se fosse essa, demasiado prosaica. hum, não seria mesmo uma espada a sério, como a do Afonso Henriques? 
esperei, cismei, sonhei, esperei, e a espada não havia meio de aparecer. até que um dia ela apareceu com um belo carro miniatura, de folha, vermelho, com parachoques niquelados, daqueles carros americanos dos anos 50, que ainda hoje se veem em Cuba. não queria acreditar. aquilo era a tal "espada", melhor, aquilo era "um" espada! 
foi envelhecendo e à medida que envelhecia foi-se tornando mais azeda. não quero lembrar-me dela de velha. esqueço. fico-me com ela de nova. tinha 96 anos. morreu. era a última representante da geração anterior. 
adeus, tia Isaura! vê lá se aproveitas para ficar mais nova.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

a sova da Páscoa

"bater na sua mulher é uma forma de a educar" - diz o xeique Hussein Mohamed Amer, imã do Centro Aljisr de Laval, Quebeque.
faz-me lembrar um pobre paciente da minha consulta hospitalar, serrano, de baixo QI e alto consumo de álcool, que, há uns anos, já não me lembro a que propósito, me dizia que presenteava todos os anos a esposa dele com a "sova da Páscoa".
"e por que lhe bate?" - perguntava-lhe eu, meio confuso. "tem alguma razão especial?"
"não é preciso razão nenhuma - respondia ele, muito seguro. "dou-lhe a sova para a amolecer".
o que é deplorável é que estes costumes pré-históricos tenham sido incorporados em certos construtos religiosos e tenham chegado ao século XXI, ainda que aparentemente mitigados- vejam só - sob a fórmula "mas não severamente". ou seja, como "um medicamento a administrar [pelo marido à esposa] só quando todos os outros não tenham conseguido extirpar a doença".
estou esclarecido. como diria o outro, uma sova da Páscoa, mas não tão grande que mate a mulher. porque, afinal de contas, é ela que lava a roupa e faz de comer.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

anda tudo doido...

a propósito do Dia Mundial do Animal, que se celebra a 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis (padroeiro da bicharada), realizaram-se já algumas iniciativas de grande relevo e mérito. 
entrava eu há dias num hipermercado, quando uma senhora faz menção de me entregar um saco de plástico vazio, que eu só teria a maçada de encher com um ou dois sacos de ração para os pobres coitados dos bichos. 
por instinto, afastei a coisa simpaticamente e agradeci a proposta, sem a aceitar. 
entro. vejo dois ou três carrinhos de compras estrategicamente colocados para que qualquer distraído, ainda pior que eu, veja que há gente condoída e nobre que contribui para a alimentação dos animais supostamente carenciados. 
entro depois no hipermercado propriamente dito. fileiras de produtos para alimentação animal esperam o meu gesto de os comprar. 
e aí, confesso, afinei. então ele é isso: eu compro e dou, o hipermercado apenas me facilita o encontro com o local e a ocasião de ser solidário com os pobres animais, que, já se vê, são fidalgos, não se contentam com os restos da comida de casa. e, tal como o hipermercado, que se põe de lado na generosidade, apenas vende, passa-se tudo num reino estranho, diria mesmo absurdo. 
ó xente, estamos em crise, há gente a passar fome e outras privações. há gente que não tem que dar aos filhos, há gente que precisa de alimentos normais, comezinhos, vulgares de Lineu, e querem que eu compre comida de pet para dar a cães e a gatos que não conheço de lado nenhum e nem sei se gostam disso? 
anda tudo doido...

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

insónia

o café que me deram
- ou fui eu que o fiz? -
não me deixa dormir
levanto-me e escrevo um poema sem jeito nenhum
apetece-me voar para o Nepal
tal e qual
talvez em pensamento
que é o que eu sou
quando o meu corpo dorme
contra a mente acordada
lá, no Nepal, talvez consiga
adormecer sentidos e sentimentos
diz-se que a meditação é isso
então gostava de não ser ninguém
ou conseguir fingir que não sou ninguém
porque só tem insónia
quem é gente
afinal,
dormir é ir para o Nepal
e não precisar de viajar para o Nepal
quero ir a Katmandu já
e adormecer esta insónia
e se não conseguir
posso ao menos fingir
ou apagar o pensamento
de tudo isso
e o que tem de bom Katmandu
é que nunca fui lá
posso sonhá-la à vontade.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

fechado no elevador

vejamos: entra no elevador e clica no número do andar para onde pretende ir. 
o elevador sobe normalmente. 
de súbito, o número do andar pretendido é substituído por dois traços: "- -". 
tenta sair. 
a porta está fechada e recusa abrir-se. toca no botão de alarme. ninguém responde. toca continuamente. ninguém responde. volta a tocar repetidamente. e ninguém responde. tenta ligar a alguém que o venha ajudar. tenta também os telefones papacontas do serviço de "apoio ao cliente". o telefone celular não tem rede em nenhum dos dois SIM. 
volta a tocar o alarme o mais tempo possível, a ver se na rua, ali a 30 metros, alguém ouve. tem de sair urgentemente porque tem um compromisso que não espera. ninguém ouve. o ar da cabine parece quente e ralo. bate com força na porta do elevador, talvez o barulho chame alguém. 
passada meia hora, ouve vozes. alguém lhe fala. sabe que já não está sozinho, mas continua fechado, abafado, ansioso. 
descobre que a porta se pode abrir levantando um cravelho com alguma força. não sabe se vai apanhar um choque, mas vale a pena correr o risco. o cravelho levantou-se. conseguiu abrir a porta. verifica que está muito acima de um andar e tem um grande salto para fazer. há um buraco medonho no poço do elevador, por onde pode cair se algo correr mal. e era uma vez. 
põem-lhe uma cadeira por baixo, no andar respetivo, mas ainda faltam 50 cm para lá chegar com os pés. é perigoso, mas tem que ser. as mãos amigas, que desconhecia amigas, amparam-lhe a descida de forma a sair o mais em segurança possível. finalmente sai. corre tudo bem.
sabem, deve haver poucas coisas que se comparem ao sentimento de alívio depois de liberto da situação de sequestro. hoje nem sequer era um dos meus melhores dias, mas agora sinto-me tremendamente feliz.
obrigado, elevador de merda!

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

a ditadura da "ciência" e a escola sem sal

ao longo da sua história multimilenar, andou o homem em busca do sal, que percorria por vezes milhares de quilómetros para chegar ao local de consumo. de barca, de burro, de camelo, o sal aparecia onde a natureza se esqueceu de o por. de tão importante e essencial para a vida humana, para manter o tónus físico e psíquico e para fornecer o indispensável iodo à glândula tiróide e assim impedir o bócio endémico, isto sem falar do seu papel na conservação de alimentos durante os meses de inatividade rústica, o sal serviu até de recompensa pelos serviços prestados aos reis, príncipes e impérios, de onde derivou diretamente a palavra "salário". tem, além disso, o nosso sangue a mesma concentração de sal que a água do mar. coisa pouca. nada disso tem importância, nada disso conta. os cérebros "científicos" que dirigem as instituições de vigilância e preservação da saúde pública é que sabem. sabemos agora que tiveram a ideia peregrina de privar de sal as nossas crianças de escola. com ou sem idênticos resultados, vão ter de compensar essa falta com medicamentos mais tarde ou mais cedo. vão fazer crianças asténicas, apáticas, abúlicas. vão piorar o rendimento escolar. são uns crânios.
podiam regular os teores máximos de sal na indústria e no comércio "alimentar". podiam. mas preferem castigar as nossas crianças em idade escolar. que deus lhes perdoe, que eu não tenho capacidade para tanto.