terça-feira, 26 de novembro de 2013

os mais desfavorecidos

estou cansado da conversa dos mais desfavorecidos, esse paleio assistencialista de meia-tijela, essa desculpa esfarrapada de quem não consegue melhor que roubar e nada faz para que a economia se desenvola e apague essa mancha dos "mais desfavorecidos".
treta ignóbil, que sai do bolso dos menos-desfavorecidos-menos-favorecidos, que, sem terem nada a ver com a crise, pagam tudo: a crise causada pelos "de cima" e a crise sofrida pelos "de baixo". 
e, no fim, saltam eles tambem, os menos-desfavorecidos-menos-favorecidos, para o rol dos mais desfavorecidos. e aí já não haverá a quem roubar porque aos grandes trutas não se rouba.
deus é realmente grande demais para ver estas coisas. e, assim, viva o neoliberalismo idiota, ou lá que é. 
e quando já só houver "mais desfavorecidos", não se queixem. é só o fim da linha. saiam e vão a pé. mas não tropecem em vocês mesmos.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

polícias e polícias

está tudo doido ou faz-se. a questão da manifestação dos polícias em frente à Assembleia da República não tem outra leitura senão a de que foi evitado um banho de sangue gravíssimo por uma questão minorca: subir ou não subir a escadaria de São Bento.
o corpo de segurança fez a leitura correta. não houve agressões, não houve provocações, não houve violência. foi uma manifestação exemplarmente pacífica. 
caiu um comandante, substituído por outro, que, justamente no discurso de tomada de posse, fez saber que é preciso agir de acordo com a avaliação do que se passa e do seu contexto e resolver a questão do descontentamento e desmoralização das forças policiais. 
o poder não está habituado a ter a polícia contra si. 
e quase me apetece ter desejado que tivesse acontecido o banho de sangue. hoje o governo estaria numa situação insustentável. e era muito bem feito. 
assim, faz de conta que tem algum controle sobre a polícia, quando acaba justamente de o ter perdido. realmente, está tudo doido. ou faz-se.


PS: caberá perguntar, face à sentença recente de um tribunal sobre um polícia que matou em serviço um criminoso em fuga, o que teria acontecido se houvesse um banho de sangue: iriam os polícias das forças de segurança todos presos?
ficaríamos nós sem polícias de uma vez por todas?

domingo, 24 de novembro de 2013

o "homem da Europa de Leste"

entrou no restaurante. lançou uma granada. sequestrou. matou e feriu. 
a coisa vai azedar. só não vê quem não quer.
o homenzinho era da "Europa de Leste"? pode ser. mas vivia em Portugal, com a crise portuguesa, com o desemprego português, com o desespero português, com os eventuais e muito portugueses salários em atraso. não estou a desculpá-lo, até porque já morreu e pronto. nem a ele nem a nenhum dos que a seguir vierem formar a inevitável lista do desespero.
da "Europa de Leste" ou de Portugal ou de outro lugar qualquer. a crise não escolhe etnias. e a revolta também não. não estou a desculpá-los. estou a culpar aqueles que não têm peso nem medida nas decisões que tomam ou que lhes mandam tomar, aqueles que não tomam em conta a humanidade e a dignidade das pessoas. 
aqueles para quem as pessoas de todas as idades são lixo. menos eles próprios, claro.
esses também não têm desculpa.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

portugueses

somos uma merda
somos os maiores
somos uma merda
somos os maiores
(moeda ao ar: somos uma merda)
somos pequeninos
somos enormes
somos pequeninos
somos enormes
(moeda ao ar: somos enormes)
não há meio de sermos
simplesmente o que somos
e muito é
se o formos.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

cousas da vida.

o velhote era um bocado espalhafatoso. gostava de fazer barulho, falar alto no café, por o telemóvel a tocar uma música detestável, das de fugir para não ter que a gramar. 
vi-o ainda há dias, junto com os mesmos amigos de sempre, e sempre nos mesmos preparos. 
deixou de aparecer.
apesar de toda a confusão que provocava nas mesas mais próximas, parece que falta qualquer coisa ali. apagou-se uma luz. era uma luz única. não é possível por uma igual no lugar daquela. 
é assim a vida. aparecer, aparecer, aparecer e desaparecer. 
"já não vem mais? é p'a sempre?" - diria o Má' (Mário) do hospício, que também já deixou de aparecer...

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

da eutanásia

tenho algumas dúvidas sobre a questão da eutanásia. na verdade, oiço muita gente falar sobre eutanásia antes de estar na situação de a querer ou não aplicar. 
já não tenho grande informação das pessoas propriamente ditas que estão na situação de doença terminal. 
talvez estejamos a pensar como pais de crianças, como capatazes de uma estrutura produtiva ou como pessoas que simplesmente têm medo da doença e da morte. 
uma coisa é o prolongamento artificial e porventura desumano de uma vida inviável e sem sujeito. outra coisa bem diferente é o comboio de situações que lhe costumam atrelar. 
se penso nisso, arrepio-me. não consigo a frieza de ver só o caso dos outros. tenho que me colocar na situação. e quando me coloco na situação tendo a deixar a decisão para a natureza. 
ela é a grande decisora, o grande tribunal, a suprema comissão de ética.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

os filhos pródigos

sempre achei a estória do filho pródigo um bocado estranha, contrária à lógica e ao sentido comum de justiça.
ainda outro dia a minha mais nova me chamava a atenção para a razão que, do seu ponto de vista, assistia aos protestos veementes dos filhos cumpridores, previsíveis, assíduos e bem comportados, perante a festa que o pai fazia ao regresso do filho transviado.
confesso o embaraço que senti perante a observação. eu próprio não entendera a lógica da parábola na idade dela, nem muito depois. achava simplesmente que era uma lógica própria dos filhos de deus feitos homens e pronto. mas hoje sei que ela contém um sentido daqueles que faz outro sentido. um sentido de quem tem coração e sentimentos.
dos meus pacientes, há uns que há meses, para não dizer mais de um ano, deixaram de dar sinais de vida. pensava que os tinha perdido, por qualquer razão, minha ou de circunstâncias da vida. desses, vieram hoje três. não posso dizer que regressaram porque, afinal, nunca tinham saído. vieram, simplesmente, porque voltaram a precisar de mim.
e com a alegria que senti por vê-los de novo, lembrei-me da velha parábola do filho pródigo e do sentido que ela faz.