terça-feira, 3 de dezembro de 2013

a camionete de motor por dentro

naquele tempo, anos 50, havia umas camionetas de passageiros que tinham o motor por fora. eram as Berliet. 
tinham duas portas: a da frente dava para um corredor com bancos de dois passageiros, de um lado e de outro de um corredor central, perfazendo ao todo uns 20 lugares; a porta de trás dava para o chamado "galinheiro", com duas filas de bancos travessos, virados um para o outro, separados por um corredor também atravessado. 
os bancos da primeira parte da camioneta não tinham comunicação com os bancos do "galinheiro". o "galinheiro" levaria ao todo dez passageiros. ou seja, a geringonça tinha, no máximo, capacidade para trinta pessoas. 
aquelas camionetas, além de pessoas, levavam dentro gigas com ovos e legumes, balaios com galinhas, coelhos, patos e perus, leitões e porcos ao colo das donas, gaiolas de pássaros, enfim, sem falar na carga mais estapafúrdia que levavam no tejadilho - coisa que ainda se hoje se vê muito nos documentários indianos.
e os cheiros eram tantos, tão vários e fortes, que a gente acabava por nem reparar em nenhum.
até àquele dia, era esse o modelo de "camioneta de carreira". chamavam-lhe "chocolateira" ou "chicolateira" porque fazia mais barulho do que andava. mas, enfim, acabava por levar a coisa a bom porto. 
mas os tempos estavam de mudança. 
os meus pais e, à época, os três filhos foram à Romaria Grande de São Torcato.
em Guimarães, para quem não sabe. 
uma enchente! tão grande, que mal cabia uma pulga entre uma pessoa e outra. nunca mais vi semelhante enchente em banda nenhuma, ou, pelo menos, nunca mais nenhuma enchente me pareceu tão cheia. 
de súbito, damos pela falta do pequeno terceiro elemento da fratria. onde estará o menino, que desgraça, ainda não há telemóveis, não há polícia nem guarda, não há quem dê ajuda, só multidão, seguida de multidão, seguida de multidão. se gritássemos ninguém ouvia, tal era o barulho da festa, dos altifalantes e de toda aquela confusão. 
já sem grande esperança, de coração destroçado, partimos em busca do menino, um rapazinho dos seus quatro anos. 
e depois de muito procurar no meio daquele indizível caos, tivemos sorte. um milagre - ainda que, eventualmente, só existam milagres quando o desespero se apaga de repente.
eis que a visão se revela: estava ali, encantado, em êxtase, sem nenhuma noção do susto de morte que nos tinha pregado, nem do risco em que se tinha metido. 
- então, menino, saiste da nossa beira e nem disseste nada? não voltes a fazer isso! 
na sua candura, vira-se para nós e diz com indizível satisfação: 
- está ali uma camionete de motor por dentro!












eram os novos tempos.









quarta-feira, 27 de novembro de 2013

os dois governos

temos dois governos, um negro como breu, outro cor-de-rosa como a Hellow Kitty. 
o cor-de-rosa enveredou pelo discurso gasto, anacrónico, bafiento e perverso dos feitos quatrocento-quinhentistas. agora é que vai ser, diz o primeiro-ministro do governo-cor-de-rosa: os nossos exportadores, quais navegantes de há quinhentos anos, vão por esse mundo fora, sem saberem se vão encontrar no fim um bom negocio. 
mas vão, de peito feito e coiso. às cegas. à aventura, comme il fault
má e infeliz comparação. como se sabe, o investimento quinhentista saldou-se num desastre económico, financeiro, demográfico e militar. 
a isto, o primeiro-ministro do governo negro como breu nada diz. porque, se calhar, não sabe como responder. 
e estes dois governos juntam-se de vez em quando para votarem nos disparates um do outro.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

o peixinho vermelho

o peixinho vermelho está ali. quando me vê, agita-se, vem à tona de água e abre a boca. falo com ele, atendo-o como gostava de ser atendido num serviço público, pego em meia dúzia de folhinhas malcheirosas, daqueles de peixe vermelho comer, deposito-as carinhosamente na água, e pronto. fica ele feliz, recebeu a sua pensão de alimentos, e vive sem mais nem menos, o perfeito parasita, o mamão do Estado-providência. 
só depois é que dou conta que o pobre do peixe não pode deixar de ser parasita. 
fui eu, o deus dele, que o coloquei naquele aquário. 
o pobre coitadinho não sabe transformar-se em empresário de sucesso e sobreviver sozinho, explorando os outros de uma maneira neoliberal correta.
não me atrevo a mandá-lo ir trabalhar, fazer-se á vida, ou emigrar. era indecente. e eu ainda passava, justamente, por ser um refinado psicopata.

os mais desfavorecidos

estou cansado da conversa dos mais desfavorecidos, esse paleio assistencialista de meia-tijela, essa desculpa esfarrapada de quem não consegue melhor que roubar e nada faz para que a economia se desenvola e apague essa mancha dos "mais desfavorecidos".
treta ignóbil, que sai do bolso dos menos-desfavorecidos-menos-favorecidos, que, sem terem nada a ver com a crise, pagam tudo: a crise causada pelos "de cima" e a crise sofrida pelos "de baixo". 
e, no fim, saltam eles tambem, os menos-desfavorecidos-menos-favorecidos, para o rol dos mais desfavorecidos. e aí já não haverá a quem roubar porque aos grandes trutas não se rouba.
deus é realmente grande demais para ver estas coisas. e, assim, viva o neoliberalismo idiota, ou lá que é. 
e quando já só houver "mais desfavorecidos", não se queixem. é só o fim da linha. saiam e vão a pé. mas não tropecem em vocês mesmos.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

polícias e polícias

está tudo doido ou faz-se. a questão da manifestação dos polícias em frente à Assembleia da República não tem outra leitura senão a de que foi evitado um banho de sangue gravíssimo por uma questão minorca: subir ou não subir a escadaria de São Bento.
o corpo de segurança fez a leitura correta. não houve agressões, não houve provocações, não houve violência. foi uma manifestação exemplarmente pacífica. 
caiu um comandante, substituído por outro, que, justamente no discurso de tomada de posse, fez saber que é preciso agir de acordo com a avaliação do que se passa e do seu contexto e resolver a questão do descontentamento e desmoralização das forças policiais. 
o poder não está habituado a ter a polícia contra si. 
e quase me apetece ter desejado que tivesse acontecido o banho de sangue. hoje o governo estaria numa situação insustentável. e era muito bem feito. 
assim, faz de conta que tem algum controle sobre a polícia, quando acaba justamente de o ter perdido. realmente, está tudo doido. ou faz-se.


PS: caberá perguntar, face à sentença recente de um tribunal sobre um polícia que matou em serviço um criminoso em fuga, o que teria acontecido se houvesse um banho de sangue: iriam os polícias das forças de segurança todos presos?
ficaríamos nós sem polícias de uma vez por todas?

domingo, 24 de novembro de 2013

o "homem da Europa de Leste"

entrou no restaurante. lançou uma granada. sequestrou. matou e feriu. 
a coisa vai azedar. só não vê quem não quer.
o homenzinho era da "Europa de Leste"? pode ser. mas vivia em Portugal, com a crise portuguesa, com o desemprego português, com o desespero português, com os eventuais e muito portugueses salários em atraso. não estou a desculpá-lo, até porque já morreu e pronto. nem a ele nem a nenhum dos que a seguir vierem formar a inevitável lista do desespero.
da "Europa de Leste" ou de Portugal ou de outro lugar qualquer. a crise não escolhe etnias. e a revolta também não. não estou a desculpá-los. estou a culpar aqueles que não têm peso nem medida nas decisões que tomam ou que lhes mandam tomar, aqueles que não tomam em conta a humanidade e a dignidade das pessoas. 
aqueles para quem as pessoas de todas as idades são lixo. menos eles próprios, claro.
esses também não têm desculpa.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

portugueses

somos uma merda
somos os maiores
somos uma merda
somos os maiores
(moeda ao ar: somos uma merda)
somos pequeninos
somos enormes
somos pequeninos
somos enormes
(moeda ao ar: somos enormes)
não há meio de sermos
simplesmente o que somos
e muito é
se o formos.