quarta-feira, 9 de abril de 2014

os dois livrinhos

às vezes ainda há coisas que nos surpreendem. um paciente, com, pelos vistos, uma habitual dificuldade em ser entendido nos difíceis enredos existenciais, ofereceu-me dois livrinhos autobiográficos. estou a lê-los. surpreende-me a leveza do estilo, sem pontuação nem acentos nem maiúsculas, mas incisivo e belo. seguem a nova ortografia. 
embora pequenos, os livrinhos são riquíssimos em pormenores do quotidiano. posso "ver" a casa, os móveis, os aparelhos domésticos, o preço das coisas e dos serviços, o entrar e sair de técnicos, empregados e empregadas. posso "sentir" a mente por vezes lúcida, por vezes transviada, por vezes enredada em cogitações e perceções invulgares. 
valem os dois livrinhos por mil conversas. 
aliás, a oferta, aparentemente, terá resultado da minha confissão de que teria que o conhecer melhor, que uma entrevista apenas não me permitia tirar grandes conclusões. mas talvez já tencionasse dar-mos. de outro modo, como os teria prontos a oferecer? 
tenho lido muita coisa dos meus pacientes. mas nada se compara ao realismo, rigor e beleza destes dois livrinhos.

segunda-feira, 24 de março de 2014

o cúmulo

Teodora Cardoso, a inefável presidente do Conselho de Finanças Públicas, sugere a criação de um "imposto sobre a despesa", ou seja, os salários e pensões seriam pagos para uma conta poupança e sempre que haja um levantamento de dinheiro, zás! uma taxa... 
esta senhora deve pensar que as pessoas têm uma árvore das patacas de onde tiram o dinheiro para as suas necessidades básicas, e que só vão ao salário por, sei lá, por mera vontade de gastar dinheiro ou por mera alegria de viver, não sei. 
o salário é um extra. talvez o dela seja. acredito. 
e é esta espécie de cromos que nos governa, ou manda em quem governa, ou influencia quem governa.
é esta coisa abaixo de estupidez, muito acima de nojo. 
talvez seja apenas um sonho mau. mas desconfio que não.

a propósito: que diabo de funções têm os cinco membros deste augusto Conselho de Finanças Públicas, que custam ao Estado 6 milhões de euros por ano?

sábado, 8 de março de 2014

o homem das ofertas

estou em pé, encostado ao meu carro. chega um sujeito de carro, matrícula espanhola, abre o vidro direito e cumprimenta-me efusivamente:
- então que fazes por aqui?
- estou à espera da minha mulher...
- e onde está ela?
(desconfio...)
- está ali dentro...(aponto para a loja em frente).
o sujeito parece-me alguém vagamente conhecido. já conheci tanta gente, que enfim...mas ele dá conta da minha dúvida:
- não me estás a reconhecer...sou fulano assim assim, engenheiro, estive em Angola e agora estou à frente do C....se precisares de alguma coisa é só dizeres. passa por lá, tenho umas ofertas para ti. fica com o meu número de telemóvel.
saca de um embrulho, desses de aparelhos elétricos e eletrónicos:
- olha tenho aqui isto para ti, é uma máquina de barbear e tem cabeças... [qualquer coisa, que não entendi]. agradeço e preparo-me para me ir embora.
- olha, que internet é que tens? é que eu tenho aqui uma box universal e para toda a vida. não pagas nada, toda a vida.
digo-lhe que acabei de mudar de operadora, muito obrigado. põe-me a box na mão. mais um embrulho eletrónico.
- tens só que pagar 187 euros.
- como assim?
- são 187 euros. que dinheiro tens aí? e não tens cartão multibanco?
- não, não tenho dinheiro, nem cartão multibanco. adeus, vemo-nos por aí, um dia destes.
chega a minha mulher.
o cavalheiro arranca-me as "ofertas" da mão e vai-se embora.
e esta?

domingo, 29 de dezembro de 2013

passagem de ano

e pronto
lá se vai mais um ano
prepara-se a festa
compra-se o champanhe
mata-se o ano velho
acolhe-se o ano novo
chim-pum-pum!
chim-pum-pum!
que estranho é este prazer
de dizer adeus ao tempo...

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

o ateu místico

sabem o que é um ateu místico?
nem eu
mas é o que eu sou
um ateu místico

descrente em deus pai todo-poderoso
criador do céu e da terra
e em seu profeta maior
e em seus profetas menores

descrente creio
ó deus das leis
do universo

leis que eu posso compreender
mas que estão lá por estar
sem esforço
nem investigação científica,
antes que alguém pensasse em leis.

o universo é as leis que procuramos no Universo
nem sequer são leis
porque não podem ser desobedecidas.
no universo não há crime
porque não existe transgressão,
porque no universo
as coisas são o que são
e não podem deixar de ser.

o Universo é o grande criador
e também o grande destruidor
e destruindo cria.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

a "confusão linguística" dos professores

agora há aqueles professores que não aprenderam, não querem aprender nem querem ensinar a nova ortografia. e que se queixam da "confusão linguística" (será ortográfica?) que eles próprios criaram e alimentam.
mas quem são eles? não são pagos para aplicar as normas e os programas? ou são pagos para não concordar com eles? 
se a moda pega, não ensinam matemática porque não concordam, não ensinam história porque não concordam, não ensinam nada porque não concordam.
mas quem são eles? olha se um instrutor de condução automóvel se recusa a aprender e a ensinar as novas regras de trânsito porque não concorda com elas. olha se um polícia se recusa a prender alguém porque não concorda com a lei...
há professores assim. mas também há quem os deixe ser assim. até quando? 

meus senhores, só existe uma "confusão linguística": a da vossa arrogância. 
já agora, se não concordam, sejam honestos. demitam-se.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

homem livre, digno e honesto

aquilo que se entende por homem livre, digno e honesto parece tão complicado e excecional que se calhar é melhor ser só um homem. e se fôssemos todos livres, dignos e honestos não teríamos necessidade de venerar aqueles que achamos que o são ou foram. 
é que dá muito trabalho ser livre, digno e honesto e é preciso ter tempo para isso. 
às vezes é preciso disposição para ser livre, digno e honesto. é preciso disposição para ser perseguido e preso e até para ser morto - talvez até mais do que para ser um crápula, assassino, mafioso e desonesto. 
e nós, os que apreciamos os homens livres, dignos e honestos, somos apenas homens. sem vagar para sermos outra coisa.
mas, seja como for, também só nos costumam chamar homens livres, dignos e honestos quando estamos presos ou morremos. 
pois é, vale mais estar vivo e ser só um homem. 
digo eu, para não querer ser mais do que aquilo que sou.