sábado, 19 de abril de 2014

páscoa

a natureza enche-se de uma fúria criativa. 
a semente caída à terra tem que "morrer" para soltar-se em uma nova vida. 
chamem-lhe Cristo, Paixão, Ressurreição, e não lhe chamarão asneira alguma. 
é tudo uma questão de níveis e de símbolos. 
podem chamar-lhe Ishtar, a deusa da fertilidade, Éostre, Easter, Páscoa, é tudo o mesmo: morrer e renascer, sexo e multiplicação, ovo e coelho. 
"crescei e multiplicai-vos".

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domingo, 13 de abril de 2014

acordar só para ver o sol

este doce não acontecer coisa nenhuma
deitar-me e acordar só para ver o sol
ser de vez em quando não ser nada
porque não me apetecem pensamentos
que bom não ser nada
que bom não acontecer coisa nenhuma
que bom não pensar nem despensar
deitar-me e acordar só para ver o sol
ah, apetecem-me coisas
que isto de querer acordar só para ver o sol
já é apetecer-me alguma coisa
e se acordo e vejo o sol
já é muito mais
do que não acontecer coisa nenhuma.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

a autenticidade dos evangelhos

as notícias rezam que cientistas comprovam a veracidade (ou será autenticidade?) do "evangelho da esposa de Jesus". e, independentemente da sua veracidade, mesmo que autêntico, esse novo evangelho dá-me que pensar. ao contrário do que é mais imediato julgar-se, Jesus, O Cristo, não era "cristão". ser "cristão" é uma construção posterior, um desenvolvimento. nem sei se Jesus, O Cristo, professaria hoje a religião que lhe é atribuída, ou se a desancaria com a mesma ferocidade com que - diz-se - se atirava aos fariseus. é que o mundo de hoje é de um farisaísmo global, incluindo o "cristianismo" que chegou até nós. agradam-me todos os textos que tragam a figura de Jesus, O Cristo, para um terreno mais humano, mais real, mais vivo. e têm, pelo menos o encanto de desencantar vida de uns restos fósseis. sinto-me sempre mais cristão quando estes textos aparecem. talvez por já estar cansado dos outros.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

isto foi assim

bom
isto foi assim
deu-me o sono
dormi
e caí dentro de mim
e quando dei conta
vi que sou feito
de mil coisas que voam
que não existem
que se mexem
e falam
e gritam
coisas assim sem matéria
acompanhadas de dor ou de prazer
ou de nem uma coisa nem outra
acordei
e voltei a ser
uma coisa que ocupa espaço
fim.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

os dois livrinhos

às vezes ainda há coisas que nos surpreendem. um paciente, com, pelos vistos, uma habitual dificuldade em ser entendido nos difíceis enredos existenciais, ofereceu-me dois livrinhos autobiográficos. estou a lê-los. surpreende-me a leveza do estilo, sem pontuação nem acentos nem maiúsculas, mas incisivo e belo. seguem a nova ortografia. 
embora pequenos, os livrinhos são riquíssimos em pormenores do quotidiano. posso "ver" a casa, os móveis, os aparelhos domésticos, o preço das coisas e dos serviços, o entrar e sair de técnicos, empregados e empregadas. posso "sentir" a mente por vezes lúcida, por vezes transviada, por vezes enredada em cogitações e perceções invulgares. 
valem os dois livrinhos por mil conversas. 
aliás, a oferta, aparentemente, terá resultado da minha confissão de que teria que o conhecer melhor, que uma entrevista apenas não me permitia tirar grandes conclusões. mas talvez já tencionasse dar-mos. de outro modo, como os teria prontos a oferecer? 
tenho lido muita coisa dos meus pacientes. mas nada se compara ao realismo, rigor e beleza destes dois livrinhos.

segunda-feira, 24 de março de 2014

o cúmulo

Teodora Cardoso, a inefável presidente do Conselho de Finanças Públicas, sugere a criação de um "imposto sobre a despesa", ou seja, os salários e pensões seriam pagos para uma conta poupança e sempre que haja um levantamento de dinheiro, zás! uma taxa... 
esta senhora deve pensar que as pessoas têm uma árvore das patacas de onde tiram o dinheiro para as suas necessidades básicas, e que só vão ao salário por, sei lá, por mera vontade de gastar dinheiro ou por mera alegria de viver, não sei. 
o salário é um extra. talvez o dela seja. acredito. 
e é esta espécie de cromos que nos governa, ou manda em quem governa, ou influencia quem governa.
é esta coisa abaixo de estupidez, muito acima de nojo. 
talvez seja apenas um sonho mau. mas desconfio que não.

a propósito: que diabo de funções têm os cinco membros deste augusto Conselho de Finanças Públicas, que custam ao Estado 6 milhões de euros por ano?

sábado, 8 de março de 2014

o homem das ofertas

estou em pé, encostado ao meu carro. chega um sujeito de carro, matrícula espanhola, abre o vidro direito e cumprimenta-me efusivamente:
- então que fazes por aqui?
- estou à espera da minha mulher...
- e onde está ela?
(desconfio...)
- está ali dentro...(aponto para a loja em frente).
o sujeito parece-me alguém vagamente conhecido. já conheci tanta gente, que enfim...mas ele dá conta da minha dúvida:
- não me estás a reconhecer...sou fulano assim assim, engenheiro, estive em Angola e agora estou à frente do C....se precisares de alguma coisa é só dizeres. passa por lá, tenho umas ofertas para ti. fica com o meu número de telemóvel.
saca de um embrulho, desses de aparelhos elétricos e eletrónicos:
- olha tenho aqui isto para ti, é uma máquina de barbear e tem cabeças... [qualquer coisa, que não entendi]. agradeço e preparo-me para me ir embora.
- olha, que internet é que tens? é que eu tenho aqui uma box universal e para toda a vida. não pagas nada, toda a vida.
digo-lhe que acabei de mudar de operadora, muito obrigado. põe-me a box na mão. mais um embrulho eletrónico.
- tens só que pagar 187 euros.
- como assim?
- são 187 euros. que dinheiro tens aí? e não tens cartão multibanco?
- não, não tenho dinheiro, nem cartão multibanco. adeus, vemo-nos por aí, um dia destes.
chega a minha mulher.
o cavalheiro arranca-me as "ofertas" da mão e vai-se embora.
e esta?