domingo, 8 de junho de 2014

a malga de arroz ou a complementaridade das culturas.

certo dia, um homem com ar triste depositava flores no túmulo da esposa recentemente falecida. 
nisto, chegou um chinês sorridente, que gentilmente colocou uma malga de arroz, com dois pauzinhos, na campa ao lado. 
confuso, o homem das flores perguntou: 

 - desculpe a minha curiosidade, mas por que razão é que você trouxe essa malga de arroz e os dois pauzinhos? 
- é para alguém que tenha morrido há pouco tempo. 
- o senhor espera mesmo que algum morto venha comer o seu arroz? 
- claro que sim, quando o seu ente querido vier cheirar o perfume das flores... 






(adaptado de uma estória publicada na internet sem menção de autor)

quinta-feira, 5 de junho de 2014

o gato

tenho uma estória de uma grande amizade com um gato.
andava eu na altura em bolandas com a minha tese de mestrado à moda antiga, que é como quem diz uma tese quase de doutoramento.
à noite, sentava-me à minha secretária a datilografar e a estudar.
o meu gato podia andar por onde andasse, que à hora habitual de eu me sentar à secretária aparecia e vinha por-se a meus pés.
e poucos minutos antes da hora habitual de eu recolher à cama, levantava-se e é como se dissesse: - boa noite!


não precisávamos de mais nada. a nossa amizade era assim.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

redação: o leite

continua a campanha contra o leite. uma campanha com laivos de "cientismo". diz que o leite deve ser retirado da roda dos alimentos. 
tenho que contrapor. 
há muitos milhares de anos que o homem vem desenvolvendo inúmeras receitas e técnicas para aproveitar o leite como fonte de alimento. criou as manteigas, os queijos, os iogurtes, as queijadas, o leite-creme e um nunca mais acabar de receitas onde o leite entra como componente essencial. 
é, certamente, o homem, o único animal que depois da amamentação materna continua a consumir leite e seus derivados. é até o único mamífero que bebe "leite" de soja. como é o único animal que produz vinhos, cervejas, sidras, vodkas e outras, muitas outras bebidas. é o único animal que conserva e cozinha alimentos. é o único animal que come de faca e garfo ou com pauzinhos chineses. é o único animal que consome sal e açúcar à sua vontade. 
é o único animal que tem destas coisas. 
mas também é o único animal que fala e escreve e constrói civilizações.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

austeridade

duas mulheres. desempregadas, sem subsídio de desemprego. 
os maridos ganham um tostão acima do máximo definido para terem direito a subsídios, RSI e assim.
um trabalha, o outro está reformado.
as senhoras estão deprimidas, ansiosas, desesperadas, não dormem, têm aspeto sofredor. 
porventura exagerarão tanto as queixas que acabam por acreditar nelas como as sentem e sofrer ainda mais. vejo que pretendem a "reforma" (jubilação) por doença. 
mas o que elas querem é sobreviver. 
e a "reforma", seja por que método for, na idade delas é a única saída. 
não lhes garanto nada, porque as "juntas médicas", que avaliam as situações e os relatórios de especialistas, não têm contemplações, têm ordens superiores. 
são ainda mais austeras que a própria austeridade.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

batizar extraterrestres

se calhar por distração, o Papa Francisco largou aquela graça de dizer que estaria disposto a batizar até extraterrestres.
fica-lhe bem a intenção, mas a coisa não é assim tão simples.
diante de extraterrestres, é possível que o Papa não seja mais que um chefe índio ou um sacerdote de tribos africanas, sujeito a ser ele o convertido, logo batizado.
porque isto de ser extraterrestre e visitar o nosso planeta tem muito que se lhe diga.
não deve ser obra de chefes índios nem de sacerdotes de tribos africanas, nem equivalente.
é claro que não tenho nada, antes pelo contrário, contra os chefes índios e os sacerdotes africanos, mas é cá um choque de civilizações que nem vos digo nem vos conto.
estará o Papa preparado para enfrentar uma civilização superior?
que irá ele dizer ou fazer que faça sentido para os nossos eventuais visitantes siderais?

domingo, 11 de maio de 2014

estou a ficar um kota

no Concurso Eurovisão da Canção ganhou "uma senhorita" austríaca adornada de barbas à "jesus-cristo". ora, eu acredito que há limites para tudo. até para o mau gosto.
ainda que, evidentemente, o mau gosto seja coisa que muda com os tempos.
seja como for, o que eu não sei é se a Conchita ganhou pelo que cantou - que era o caso do concurso - ou se ganhou pelo mau gosto.
e se foi pelo mau gosto, mais vale esquecer o concurso da canção.
que, aliás, já não frequento.
são novidades demais para mim. estou a ficar um kota.


mas sinto-me melhor assim.




sábado, 10 de maio de 2014

antibióticos "deco"rativos.

a "deco" ("associação de defesa do consumidor") resolveu, uma vez mais, brincar aos doentes e fazer uma "pesquisa" baseada na falsificação de sintomas por parte de pretensos "doentes". 
e desta vez concluiu que há "demasiada prescrição de antibióticos". 
é claro que, há muito que sabemos, sem necessidade de falsificar sintomas, que há demasiada prescrição de antibióticos, mesmo na presença de sintomas autênticos. 
e, muitas vezes, é o paciente que não fica satisfeito se não leva um antibiótico na prescrição. 
mas o "método" da "deco" é, no mínimo, execrável. 
ir ao médico de propósito para o enganar e o apanhar no engano não é digno. 
é muito pior do que prescrever antibióticos para sintomas falsos. 


cada um tem o que merece.




sexta-feira, 9 de maio de 2014

voz ativa...

entretanto, fui lendo coisas sobre políticos americanos, europeus, asiáticos, etc. e tal, mas sobretudo americanos, sobretudo "tea party", sobre gente de bom aspeto, sobre gente demasiado rica, sobre gente que não se sabe de onde lhe vem o que tem, sobre os trustes das armas e das drogas, armas para lá, drogas para cá, sobre como se espalham guerras para vender armas e como se trazem as drogas para o "Primeiro Mundo", sobre como se fazem as coisas nesse planeta. 
estarrecido é pouco. 
convenci-me de que vivemos num mundo onde por cima da vida normal, tão por cima que ninguém lhes chega, há um inferno de gente que manda em tudo, que controla tudo, que suga tudo. que decide do que é verdade e do que é mentira, do que é o "lado bom" e o "lado mau", do que "democrático" e do que é "ditador". 
e, acima de tudo, quem diz estas coisas concerteza é louco. 
e nós a pensarmos que temos algum poder, alguma voz ativa...




domingo, 27 de abril de 2014

novos santos

temos dois santos novinhos em folha. por sinal Papas. 
a coisa já estava em marcha quando Francisco chegou. e também não é por aí que o Francisco borra a pintura. fez bem em não mexer no assunto e deixá-lo seguir os trâmites até ao fim. na Igreja há de tudo e não é bom pastor o que divide as ovelhas. 
e fez ainda melhor ao dizer que coloca ao serviço dos pobres o ouro do Vaticano. já vi quem criticasse até isto, dizendo que o oiro acaba antes de acabarem os pobres. mas nisto, quando se quer mexer em alguma coisa, é-se preso por ter cão e preso por não ter. se não fizesse nada pelos pobres, aqui d'el rei que era um sovina e um especulador financeiro. não tenho pachorra para essas críticas. 
quanto ao caso dos Papas e do respetivo processo, é claro que há que dar à coisa da "santidade" um ar de gravidade e seriedade superior ao sentir da populaça. 
o "milagre" é uma boa peneira. ainda que os "milagres" se esgotem no setor da saúde, o que eu, como médico, entendo muito bem. o facto de haver "milagres" em todas as religiões aponta para mecanismos psico-imunitários complexos em que a projeção das dificuldades num ente afetivo mais ou menos virtual, ou até imaginário, pode por em marcha processos de reposição do equilíbrio físico e psíquico. 
não acredito em santos nem deixo de acreditar. já tive na vida momentos em que tive de projetar nessas figuras grandes e muito difíceis problemas. e por isso ou por qualquer outra razão, o resultado não podia ser melhor.
bem-vindos ao panteão, senhores santos novos.

médico a sério

não tenho tido muitas oportunidades de mostrar as minhas habilidades médicas em público, quando alguém se sente mal ou tem um acidente. 
mas ontem aconteceu. alguém se sentiu mal, alguém me reconheceu e zás, lá saltei para a ribalta. 
o maior problema são os mirones, que acorrem de todos os lados, cada qual com suas dúzias de olhos e palpites. 
mandar afastar e calar os espectadores é a parte mais difícil da cena. 
mas o melhor da festa foi o orgulho visível da minha mais nova por ter um pai médico a sério. 
estava convencida que eu era só psiquiatra.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

união Europeia?


ora bem, temos uma União Europeia, uma moeda única e era de supor que tivéssemos uma política de igualização solidária do ponto de vista orçamental e financeiro. 
uma União parece-me que seja uma coisa assim desse tipo. 
os orçamentos excedentários de uns devem cobrir os orçamentos deficitários de outros. caso contrário, para que serve a União? 
mas o que acontece é que os Estados mais "ricos" impuseram um pacto de espartilho aos Estados mais "pobres", como se todos os Estados da União estivessem no mesmo plano económico e social (e por que haveriam de estar?). 
é o chamado "Pacto Orçamental", que faz com que todos os Estados signatários tenham as mesmas regras financeiras, como se fossem todos iguais. e têm de produzir todos ao mesmo tempo cada qual o seu DEO - "documento de estratégia orçamental". 
um tal pacto o que produz é riqueza para os mais "ricos" e pobreza para os mais "pobres", fugindo à regra da complementaridade solidária e fazendo com que os Estados mais "ricos", para quem a União interessa pela livre circulação dos seus produtos, só tirem a parte melhor do sistema, evitando a parte mais desagradável, que é a de contribuírem solidariamente para o desenvolvimento dos mais "pobres". 
e com isso matam a União. primeiro, porque ela mata os Estados que não têm uma economia do tipo dos Estados "mais fortes"; segundo, porque em última análise acaba, mais tarde ou mais cedo, por destruir as vantagens que os Estados "mais ricos" tiram da União económica, financeira e política. porque Estado "mais pobre" não compra a "rico". 
então, ou os "Estados ricos" mudam de política rapidamente, ou adeus União Europeia e moeda única. 
e quero ver os "ricos" a vender aos "pobres" aquilo que produzirem.

sábado, 19 de abril de 2014

páscoa

a natureza enche-se de uma fúria criativa. 
a semente caída à terra tem que "morrer" para soltar-se em uma nova vida. 
chamem-lhe Cristo, Paixão, Ressurreição, e não lhe chamarão asneira alguma. 
é tudo uma questão de níveis e de símbolos. 
podem chamar-lhe Ishtar, a deusa da fertilidade, Éostre, Easter, Páscoa, é tudo o mesmo: morrer e renascer, sexo e multiplicação, ovo e coelho. 
"crescei e multiplicai-vos".

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domingo, 13 de abril de 2014

acordar só para ver o sol

este doce não acontecer coisa nenhuma
deitar-me e acordar só para ver o sol
ser de vez em quando não ser nada
porque não me apetecem pensamentos
que bom não ser nada
que bom não acontecer coisa nenhuma
que bom não pensar nem despensar
deitar-me e acordar só para ver o sol
ah, apetecem-me coisas
que isto de querer acordar só para ver o sol
já é apetecer-me alguma coisa
e se acordo e vejo o sol
já é muito mais
do que não acontecer coisa nenhuma.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

a autenticidade dos evangelhos

as notícias rezam que cientistas comprovam a veracidade (ou será autenticidade?) do "evangelho da esposa de Jesus". e, independentemente da sua veracidade, mesmo que autêntico, esse novo evangelho dá-me que pensar. ao contrário do que é mais imediato julgar-se, Jesus, O Cristo, não era "cristão". ser "cristão" é uma construção posterior, um desenvolvimento. nem sei se Jesus, O Cristo, professaria hoje a religião que lhe é atribuída, ou se a desancaria com a mesma ferocidade com que - diz-se - se atirava aos fariseus. é que o mundo de hoje é de um farisaísmo global, incluindo o "cristianismo" que chegou até nós. agradam-me todos os textos que tragam a figura de Jesus, O Cristo, para um terreno mais humano, mais real, mais vivo. e têm, pelo menos o encanto de desencantar vida de uns restos fósseis. sinto-me sempre mais cristão quando estes textos aparecem. talvez por já estar cansado dos outros.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

isto foi assim

bom
isto foi assim
deu-me o sono
dormi
e caí dentro de mim
e quando dei conta
vi que sou feito
de mil coisas que voam
que não existem
que se mexem
e falam
e gritam
coisas assim sem matéria
acompanhadas de dor ou de prazer
ou de nem uma coisa nem outra
acordei
e voltei a ser
uma coisa que ocupa espaço
fim.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

os dois livrinhos

às vezes ainda há coisas que nos surpreendem. um paciente, com, pelos vistos, uma habitual dificuldade em ser entendido nos difíceis enredos existenciais, ofereceu-me dois livrinhos autobiográficos. estou a lê-los. surpreende-me a leveza do estilo, sem pontuação nem acentos nem maiúsculas, mas incisivo e belo. seguem a nova ortografia. 
embora pequenos, os livrinhos são riquíssimos em pormenores do quotidiano. posso "ver" a casa, os móveis, os aparelhos domésticos, o preço das coisas e dos serviços, o entrar e sair de técnicos, empregados e empregadas. posso "sentir" a mente por vezes lúcida, por vezes transviada, por vezes enredada em cogitações e perceções invulgares. 
valem os dois livrinhos por mil conversas. 
aliás, a oferta, aparentemente, terá resultado da minha confissão de que teria que o conhecer melhor, que uma entrevista apenas não me permitia tirar grandes conclusões. mas talvez já tencionasse dar-mos. de outro modo, como os teria prontos a oferecer? 
tenho lido muita coisa dos meus pacientes. mas nada se compara ao realismo, rigor e beleza destes dois livrinhos.

segunda-feira, 24 de março de 2014

o cúmulo

Teodora Cardoso, a inefável presidente do Conselho de Finanças Públicas, sugere a criação de um "imposto sobre a despesa", ou seja, os salários e pensões seriam pagos para uma conta poupança e sempre que haja um levantamento de dinheiro, zás! uma taxa... 
esta senhora deve pensar que as pessoas têm uma árvore das patacas de onde tiram o dinheiro para as suas necessidades básicas, e que só vão ao salário por, sei lá, por mera vontade de gastar dinheiro ou por mera alegria de viver, não sei. 
o salário é um extra. talvez o dela seja. acredito. 
e é esta espécie de cromos que nos governa, ou manda em quem governa, ou influencia quem governa.
é esta coisa abaixo de estupidez, muito acima de nojo. 
talvez seja apenas um sonho mau. mas desconfio que não.

a propósito: que diabo de funções têm os cinco membros deste augusto Conselho de Finanças Públicas, que custam ao Estado 6 milhões de euros por ano?

sábado, 8 de março de 2014

o homem das ofertas

estou em pé, encostado ao meu carro. chega um sujeito de carro, matrícula espanhola, abre o vidro direito e cumprimenta-me efusivamente:
- então que fazes por aqui?
- estou à espera da minha mulher...
- e onde está ela?
(desconfio...)
- está ali dentro...(aponto para a loja em frente).
o sujeito parece-me alguém vagamente conhecido. já conheci tanta gente, que enfim...mas ele dá conta da minha dúvida:
- não me estás a reconhecer...sou fulano assim assim, engenheiro, estive em Angola e agora estou à frente do C....se precisares de alguma coisa é só dizeres. passa por lá, tenho umas ofertas para ti. fica com o meu número de telemóvel.
saca de um embrulho, desses de aparelhos elétricos e eletrónicos:
- olha tenho aqui isto para ti, é uma máquina de barbear e tem cabeças... [qualquer coisa, que não entendi]. agradeço e preparo-me para me ir embora.
- olha, que internet é que tens? é que eu tenho aqui uma box universal e para toda a vida. não pagas nada, toda a vida.
digo-lhe que acabei de mudar de operadora, muito obrigado. põe-me a box na mão. mais um embrulho eletrónico.
- tens só que pagar 187 euros.
- como assim?
- são 187 euros. que dinheiro tens aí? e não tens cartão multibanco?
- não, não tenho dinheiro, nem cartão multibanco. adeus, vemo-nos por aí, um dia destes.
chega a minha mulher.
o cavalheiro arranca-me as "ofertas" da mão e vai-se embora.
e esta?