terça-feira, 1 de julho de 2014

a propósito da detenção de Nicolas Sarkozy

Nicolàs, Nicolàs,
quem te viu pela frente,
quem te vê por trás...
e a justiça em França,
que chatice,
não é como cá...
por isso eu te disse
entre dois pés de dança
mais vale ser presidente cá
do que ex-presidente lá.


sexta-feira, 27 de junho de 2014

in dubio pro mulieribus

passei uma boa parte da tarde de hoje em conversa com o advogado de um paciente meu. 
um advogado sénior, simpático, sensível e decididamente muito interessado pelo seu cliente. 
trata-se de um daqueles casos tenebrosos de regulação do poder dito "paternal", após um divórcio conflitual. e da intervenção de uma interminável panóplia de técnicos e pareceres, nem sempre isentos, nem sempre imparciais. 
a páginas tantas do processo, o pai (neste caso o meu paciente e cliente do advogado) é impedido de contactar o filho, não pode estar com ele vai para dois anos. 
no processo adensam-se as "provas" e "reprovas" contra as más "vibrações" que a presença do pai provoca junto do filho. 
filho que, no dizer do pai, acaba por ser um "órfão de pai vivo". 
o pai sofre visivelmente. sofre. extremamente ansioso, deprimido, mas obstinado em conseguir voltar ao contacto com o filho. 
quer simplesmente ser pai. mas as coisas estão longe de ser fáceis. a mãe opõe-se. 
e a cultura jurídica portuguesa não o favorece. 
a mãe não quer e pronto. 
in dubio pro mulieribus. 
amen.



a Língua portuguesa "faz hoje 800 anos"

há notícias que conformam um não sei quê de ridículo, e esta é uma delas. 
de acordo com jornais, deputados, intelectuais e que tais, hoje, 27 de junho de 2014, "a língua portuguesa comemora 800 anos". 
é que, nesta data, há 800 anos atrás, o nosso rei D. Afonso II mandou redigir o seu testamento em língua vernácula, isto é, em Galego-português, coisa que aconteceu pela primeira vez, já que até aí os documentos oficiais eram escritos em Latim medieval. 
mas isso tem que ser visto no seu significado e no seu contexto. porque, senão, parece que "faz hoje oitocentos anos" que alguém se lembrou de inventar do nada uma língua nova. 
a mim e a muito boa gente parece outra coisa: parece-me que se Afonso II se lembrou de redigir o seu testamento em língua vernácula é porque esta já existia muito antes e já ninguém entendia o latinório medieval dos tabeliões sem recurso a especialistas. 
quanto à nossa língua, bom, é muito mais antiga que isso. uma coisa é a escrita de documentos oficiais, outra coisa, completamente distinta, é a língua falada efetivamente no dia a dia das pessoas. o próprio rei D. Afonso, certamente, não a mandou inventar de propósito para o seu testamento. há até quem diga que a falava desde que deixou a chucha. e aposto que vai ser muito difícil dizer quando é que a nossa língua começou a ser falada. porque a nossa língua não faz anos, fala-se.


PS: o que D. Afonso II fez foi uma opção política entre a língua "litúrgica" e a língua vernácula em documentos oficiais, um processo recorrente ao longo da história, quer em assuntos civis quer em assuntos religiosos. por exemplo, as Igrejas Coptas mantêm o Copta como língua litúrgica, apesar de extinta há quatro séculos e apesar de os fieis falarem Árabe; já a Igreja Católica Romana, nos inícios dos anos 60 do século XX, por ação do Concílio Vaticano II, substituiu a língua litúrgica, o Latim, pelas línguas vernáculas faladas em cada país. ora, as línguas vernáculas já lá estavam e continuaram. o que acabou foi o Latim. por isso se pode afirmar que o testamento de D. Afonso II não marca o nascimento do Galego-português, o que marca é a morte do Latim (medieval) como língua tabeliónica em Portugal.



terça-feira, 24 de junho de 2014

o Assis

o Assis, mui previdente,
com a política à míngua,
sofreu um grande acidente:
o gato comeu-lhe a língua.

o Assis desapareceu,
ninguén' o ouve nem vê.
ou foi um ai que lhe deu
ou ele sabe porquê.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

noite de são joão

deus fez os homens assim
e fez as mulheres assado.
assim como assim
dois rios confluentes:
as mulheres inocentes
e os homens culpados.
no solstício de verão
na noite de São João
anda tudo à martelada
mas que grande confusão
que vai aqui e além
nesta noite abençoada
porque a culpa, entretanto,
não é de ninguém
é do santo.

a matemática

adoro a matemática
a mais fleumática
e a menos certa,
a menos dançante
e a mais acrobática.
adoro a fórmula, a equação,
que até a trovoada tem.
é a linguagem de deus,
ou, se quisermos, também,
o contradiscurso de satã.
ou se quisermos, porém,
a linguagem das coisas
como as coisas são.
umas vezes certas, exatas,
outras incertas e chatas
e outras nem sim nem não.
mas sempre matemática.
até o sexo oral é matemática
e sendo a pensar em Jesus Cristo,
não é pecado, está visto.

domingo, 22 de junho de 2014

atriz foi a Fátima, deus chamou-a e fez-se freira

uma atriz e modelo espanhola foi a Fátima, ouviu o chamamento de deus e tornou-se freira.
eu já fui a Fátima várias vezes e deus nunca quis saber de mim.
isto é, não sei se me chamou se não.
pode ter falado naqueles comprimentos de onda para os quais sou um bocado surdo, surdez que se agrava com o andar da idade.
mas compreendo que haja pessoas que, ouvindo muito melhor que eu, e com ouvidos muito mais jovens, o oiçam de uma forma tão intensa que tenham de o seguir compulsivamente.
não digo isto para fazer pouco, digo isto para fazer muito.
é que, como dizia o filho de deus, quem tem ouvidos para ouvir que oiça, que quem não tem também não tem culpa.