quarta-feira, 16 de julho de 2014

zé rebelo

nos primórdios de oitocentos, Zé Rebelo, alfaiate, vinha sezonalmente de Ribeira de Pena a Guimarães para despachar trabalhos e encomendas.
uma das paragens da sua caminhada de onze léguas a pé era uma casita em Serafão, espécie de poiso certo, de albergaria só pra ele.
aí, três quartos do caminho andado, tinha cama, mesa, roupa lavada, companhia e assistência a outras precisões.
a mulher que o esperava era uma tal Ana Francisca, a quem Zé Rebelo terá feito pelo menos quatro filhos.
o trabalho de alfaiate não devia correr mal de todo: sustentava esses filhos mais os legítimos e, quem sabe, outros Serafões.
Zé Rebelo é meu antepassado, que deus tenha. e falo nisto porque acho muita graça.

sábado, 5 de julho de 2014

o fio

em Lisboa, finais de 2003. a minha mulher estava grávida de 3 meses. saíamos do restaurante chinês. estava frio e a chover. vestíamos as gabardines, para sair.
um dos chineses, cheio de salameques e tacha arreganhada, diz para minha mulher:
- tem fio?...
- sim, está muito frio...
- não, tem fio no baliga... (e aponta para a barriga, onde mal se notava a gravidez).
- ahahah, sim...
e não era um filho, era uma filha...

quinta-feira, 3 de julho de 2014

os telemóveis

falar ao telemóvel tornou-se um vício terrível. se deixo o telemóvel em casa é como se ficasse sem computador ou sem acesso ao Facebook. fico de rastos.
mas o telemóvel tem as suas vantagens.
primeiro, as meninas da estrada passam o tempo entrequecas a falar ao telemóvel, fazendo de conta que falam com alguém muito poderoso que lhes acudirá em caso de necessidade.
segundo, eu tinha um vizinho esquizofrénico, que ouvia vozes e falava com elas. um belo dia, para disfarçar e ninguém dizer que falava sozinho, comprou um telemóvel. e passava horas a falar com os seus interlocutores. só eu é que desconfiei de tanto falar ao telemóvel e na rua, para toda a gente ouvir. mas fiz sempre de conta que acreditava na cena.





e, terceiro, há muitos mais casos em que o telemóvel dá um jeitão.







terça-feira, 1 de julho de 2014

pão com chouriço, nozes e passas

importantíssimo:
pão com chouriço,
nozes e passas
vai às finanças
com seis por cento
e eu acrescento,
felicíssimo:
não passo sem isso,
caraças!




a propósito da detenção de Nicolas Sarkozy

Nicolàs, Nicolàs,
quem te viu pela frente,
quem te vê por trás...
e a justiça em França,
que chatice,
não é como cá...
por isso eu te disse
entre dois pés de dança
mais vale ser presidente cá
do que ex-presidente lá.


sexta-feira, 27 de junho de 2014

in dubio pro mulieribus

passei uma boa parte da tarde de hoje em conversa com o advogado de um paciente meu. 
um advogado sénior, simpático, sensível e decididamente muito interessado pelo seu cliente. 
trata-se de um daqueles casos tenebrosos de regulação do poder dito "paternal", após um divórcio conflitual. e da intervenção de uma interminável panóplia de técnicos e pareceres, nem sempre isentos, nem sempre imparciais. 
a páginas tantas do processo, o pai (neste caso o meu paciente e cliente do advogado) é impedido de contactar o filho, não pode estar com ele vai para dois anos. 
no processo adensam-se as "provas" e "reprovas" contra as más "vibrações" que a presença do pai provoca junto do filho. 
filho que, no dizer do pai, acaba por ser um "órfão de pai vivo". 
o pai sofre visivelmente. sofre. extremamente ansioso, deprimido, mas obstinado em conseguir voltar ao contacto com o filho. 
quer simplesmente ser pai. mas as coisas estão longe de ser fáceis. a mãe opõe-se. 
e a cultura jurídica portuguesa não o favorece. 
a mãe não quer e pronto. 
in dubio pro mulieribus. 
amen.



a Língua portuguesa "faz hoje 800 anos"

há notícias que conformam um não sei quê de ridículo, e esta é uma delas. 
de acordo com jornais, deputados, intelectuais e que tais, hoje, 27 de junho de 2014, "a língua portuguesa comemora 800 anos". 
é que, nesta data, há 800 anos atrás, o nosso rei D. Afonso II mandou redigir o seu testamento em língua vernácula, isto é, em Galego-português, coisa que aconteceu pela primeira vez, já que até aí os documentos oficiais eram escritos em Latim medieval. 
mas isso tem que ser visto no seu significado e no seu contexto. porque, senão, parece que "faz hoje oitocentos anos" que alguém se lembrou de inventar do nada uma língua nova. 
a mim e a muito boa gente parece outra coisa: parece-me que se Afonso II se lembrou de redigir o seu testamento em língua vernácula é porque esta já existia muito antes e já ninguém entendia o latinório medieval dos tabeliões sem recurso a especialistas. 
quanto à nossa língua, bom, é muito mais antiga que isso. uma coisa é a escrita de documentos oficiais, outra coisa, completamente distinta, é a língua falada efetivamente no dia a dia das pessoas. o próprio rei D. Afonso, certamente, não a mandou inventar de propósito para o seu testamento. há até quem diga que a falava desde que deixou a chucha. e aposto que vai ser muito difícil dizer quando é que a nossa língua começou a ser falada. porque a nossa língua não faz anos, fala-se.


PS: o que D. Afonso II fez foi uma opção política entre a língua "litúrgica" e a língua vernácula em documentos oficiais, um processo recorrente ao longo da história, quer em assuntos civis quer em assuntos religiosos. por exemplo, as Igrejas Coptas mantêm o Copta como língua litúrgica, apesar de extinta há quatro séculos e apesar de os fieis falarem Árabe; já a Igreja Católica Romana, nos inícios dos anos 60 do século XX, por ação do Concílio Vaticano II, substituiu a língua litúrgica, o Latim, pelas línguas vernáculas faladas em cada país. ora, as línguas vernáculas já lá estavam e continuaram. o que acabou foi o Latim. por isso se pode afirmar que o testamento de D. Afonso II não marca o nascimento do Galego-português, o que marca é a morte do Latim (medieval) como língua tabeliónica em Portugal.