domingo, 26 de outubro de 2014

política hoje

a política deixou de ser a dialética entre opções e soluções, a arte de governar melhor, e transformou-se num lamaçal onde cada qual tenta encontrar um pouco mais de lama no vizinho. 
e assim é difícil. 
eu sei que os melhores, os que são mais competentes, não podem estar na política, porque não lhes pagam em função da sua competência. quem é competente vai pregar para outras freguesias, onde lhes pagam o que merecem. e, assim, a política deixa de ser o lugar da competência e passa a ser o campo do chicoespertismo medíocre e da corrupção mais desgraçada. 
hoje, muitos políticos não são já os gestores da coisa pública que orienta a vida dos privados, passaram, antes, a ser correia de transmissão de interesses privados que se movimentam à custa da coisa pública. 
porque, assim, logo que saiam do sacrifício, alguém lhes oferecerá um bom lugar, talvez mesmo as 70 virgens do paraíso muçulmano. 
por isso mesmo, além de incompetentes são jovens demais para serem políticos. logo, são duplamente incompetentes. 
hoje, o que temos já não é tanto uma crise política partidária ou uma crise de credibilidade da política. o que temos não é sequer política. é uma merda. uma merda que merecemos.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

procissões laicas

a população de Coimbra vai caminhar amanhã "contra o cancro da mama". 
a procissão sairá da praça da República, pelas 15,00 h, desce por ali abaixo e termina no Parque Verde. 
integradas no Mês Internacional de Prevenção do Cancro da Mama, realizar-se-ão, em simultâneo, procissões idênticas em sete cidades da região Centro. 
pelas suas propriedades, estas procissões têm sido muito aconselhadas na diabetes sedentária, mas espera-se que também atuem no cancro da mama. 
tanto mais que no fim da procissão decorrerão várias iniciativas relacionadas com a doença, tais como DJs, saltimbancos, aula de zumba, fanfarra de bombeiros e pinturas faciais. 
quem quiser processionar paga 5 euros e ainda recebe um kit com uma t-shirt muito útil, uma garrafa de água e folhetos informativos. imperdível.

terça-feira, 22 de julho de 2014

os politicamente corretos e a Guiné Equatorial

devo exprimir claramente a minha opinião sobre o caso da Guiné Equatorial. 
os mesmos puristas e isolacionistas de sempre estão muito preocupados com a ditadura do senhor Obiang, em lugar de estarem preocupados com a expansão e influência do nosso idioma. as ditaduras passam e o idioma fica. 
sei que, felizmente, os outros membros da CPLP estão-se nas tintas para os nossos pruridos e arrogâncias. a coisa é ao contrário: não deve ser a Guiné Equatorial que deve ser um exemplo de democracia impoluta antes de entrar para a CPLP, deve ser a CPLP, primeiro, um espaço de convívio democrático. 
não deve ser o aluno que vem à escola cheio de sabedoria ensinar colegas e professores, deve ser a escola a dar-lhe a sabedoria que procura. 
e, já agora, quantos Estados da CPLP são assim tão impolutos democraticamente? 
bem-vinda, Guiné Equatorial!

sexta-feira, 18 de julho de 2014

"Professores contra o Acordo Ortográfico"

há por aí um grupelho intitulado "Professores contra o Acordo Ortográfico", que me causa uma sensação de náusea. é simples: não precisamos de professores "contra a nova ortografia".
professores que "não concordem" com as normas oficiais devem sair e dar o lugar a outros. era só o que faltava ter de os aturar. quem julgam eles que são?
como funcionários, a sua função não é questionar as normas que têm de adotar no exercício das suas funções, é cumpri-las.
quem não concorda com as normas que deve aplicar no seu ofício demite-se e pronto.
é assim que procedem as pessoas de bem.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

o padre Fontenla


vai pra uns três séculos. acontece que o padre Fontenla, de São Torcato, Guimarães, antes de ser padre era um homem. por isso, tinha por lá as suas amigas, das quais uma lhe deu uma filha. foi um homem às direitas: educou-a, casou-a e deu-lhe um dote principesco. do padre Fontenla descende uma vasta tribo, da qual tenho a honra de fazer a minha ínfima parte. continuou a haver padres na família, mas não tenho informação de terem ou não sido tão assumidos na sua humanidade.

zé rebelo

nos primórdios de oitocentos, Zé Rebelo, alfaiate, vinha sezonalmente de Ribeira de Pena a Guimarães para despachar trabalhos e encomendas.
uma das paragens da sua caminhada de onze léguas a pé era uma casita em Serafão, espécie de poiso certo, de albergaria só pra ele.
aí, três quartos do caminho andado, tinha cama, mesa, roupa lavada, companhia e assistência a outras precisões.
a mulher que o esperava era uma tal Ana Francisca, a quem Zé Rebelo terá feito pelo menos quatro filhos.
o trabalho de alfaiate não devia correr mal de todo: sustentava esses filhos mais os legítimos e, quem sabe, outros Serafões.
Zé Rebelo é meu antepassado, que deus tenha. e falo nisto porque acho muita graça.

sábado, 5 de julho de 2014

o fio

em Lisboa, finais de 2003. a minha mulher estava grávida de 3 meses. saíamos do restaurante chinês. estava frio e a chover. vestíamos as gabardines, para sair.
um dos chineses, cheio de salameques e tacha arreganhada, diz para minha mulher:
- tem fio?...
- sim, está muito frio...
- não, tem fio no baliga... (e aponta para a barriga, onde mal se notava a gravidez).
- ahahah, sim...
e não era um filho, era uma filha...