segunda-feira, 3 de novembro de 2014

requiem

"requiem" quer dizer "descanso" e consiste num cerimonial e numa música destinada aos mortos recentes, acabadinhos de morrer ou mortos há poucos dias.
vem da ideia de que morrer é descansar.
infelizmente, é um descanso muito cansativo, como estar de férias mais de três semanas seguidas.
por isso, os mortos ao fim de trinta dias devem ficar fartos de tanto descanso.
digo eu.
e se virmos que se trata de um descanso eterno, a coisa torna-se uma condenação, uma pena perpétua propriamente dita. um inferno.


podia haver uns intervalos de vez em quando. uma espécie de jubilação com direito a fazer uns biscates. sempre era mais animado.
deus, vê lá isso...

sábado, 1 de novembro de 2014

publiciência

a velocidade a que a "ciência" produz artigos que alertam para os prodígios, vantagens e malefícios de muitos produtos, recursos, alimentos e até drogas tem a ver com a desnacionalização da produção científica, o desinvestimento público e o sistema de financiamento privado, ficando as universidades à mercê dos patrocínios de muitos mecenas interesseiros. 
assim sendo, o resultado da investigação é o pretendido pelos financiadores. a investigação deixa de ser ciência e passa a ser publicidade ou contra-publicidade. 
o fenómeno, que é particularmente evidente nas universidades americanas, ameaça estender-se e contaminar as universidades europeias, sobretudo depois da implantação do neoliberalismo e da sua querida "austeridade".

outra vez o leite de vaca

não sei a quem serve a teoria e os estudos "científicos" que tentam comprovar os malefícios do leite de vaca. 
sei que cada vez se vende mais leite de soja. e "laticínios" de soja. 
mas isso, provavelmente, é só uma importuna coincidência. 
o mais provável é que seja uma inovação revolucionária, daquelas a sério, que vai transformar de vez a nossa existência. 
é que o leite de vaca (e, já agora, o de ovelha, de cabra ou de camela) tem sido utilizado pelos nossos antepassados desde o Neolítico. 
convenhamos que o Neolítico é uma civilização fora de moda. antes de mais, porque os neolíticos morriam todos e alguns até tinham fraturas ósseas, sem saberem que era por causa do leite. 
e tanto não sabiam que até se davam ao luxo de o transformar em manteiga, queijo, queijadinhas, requeijão, leite creme e iogurtes. 
a nefasta ideia foi passando de geração em geração sem que os pobres descendentes se dessem conta da razão por que morriam ou por que tinham fraturas ósseas na pós-menopausa. 
mas, felizmente, agora sabemos: as pessoas que bebem leite morrem. 
e era tão fácil, afinal, viver para sempre: era só não beber leite! 
bingo!
infelizmente, para mim a descoberta já vem tarde demais. já bebi muito leite. não sei se ainda vou a tempo de não morrer.



sexta-feira, 31 de outubro de 2014

deus


bom, falemos de deus. 
para mim, deus e o universo são uma e a mesma coisa, aquilo a que chamamos bem e aquilo a que chamamos mal, os predadores e as presas, o dia e a noite, o ferro e a água, o arquiteto e o demolidor. o que está certo e o que está errado, o paraíso e o inferno, o bom e o mau tempo, a estabilidade biológica e as pragas. 
deus, esse tal que só não se criou a si mesmo porque não foi preciso: sempre existiu e sempre existirá, numa forma ou noutra, antes e depois do nosso Big Bang. 
e digo "nosso", porque bem de certo houve outros e haverá outros depois, noutros tempos, noutras bandas, noutras dimensões. 
um deus tão diverso e tão contraditório que egípcios, gregos, romanos, indianos e muitos outros o dividiam, ou dividem ainda, por centenas de personagens, masculinas e femininas, cada qual com seu feitio e artes. 
judeus, cristãos e muçulmanos dividem-no em dois: o propriamente dito e o diabo. por sinal ambos masculinos. por sinal, um impassível, mono, quieto, imobilista, misericordioso e pai; o outro traquina, desobediente, experimentalista, quiçá o mau filho. 
um observa candidamente, o outro faz. 
deus é o Universo, o Verbo, isto é, deus é uma palavra. 
(talvez continue...)

a insubtileza

contou-me um amigo e colega. custou-me a acreditar, mas pelos vistos é mesmo assim. 
disse-me ele: 

"- adotei uma gata numa associação pró-animais, sob o compromisso escrito de a tratar como rainha dos bichos e de a esterilizar no tempo próprio, para evitar as sucessivas ninhadas de príncipes que não há Orçamento de Estado que os aguente. 
e o tempo próprio chegou. 

como a associação tinha um protocolo com uma clínica veterinária cá da parvónia, a complicada intervenção cirúrgica ficava-me por 50 euros. 
a intervenção foi marcada. 
sucede que, por mero acaso, a estória foi comentada entre família. e logo o grande cirurgião veterinário da tribo, sabendo que no dia seguinte à intervenção já programada eu iria deslocar-me à cidade grande, se disponibilizou para capar a bicha. 
aceitei a oferta, tanto mais que ter um cirurgião veterinário na família não é coisa de que qualquer um se possa gabar.
correu tudo lindamente. 
a clínica estava felizmente às moscas. 
à saída passei pela receção. achei que era uma medida meramente protocolar. 
qual não é o meu espanto, espetam-me com uma conta de 160 euros. 
merda, pensei, afinal sou médico e familiar próximo, com mil diabos!"


olhei para ele e ri-me com vontade: 
- és mesmo um tolo, acaso a tua gata é médica ou da família?

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Inch' Allah

o presidente executivo da Apple anunciou urbi et orbi a sua homossexualidade: "tenho orgulho em ser gay e considero o facto de ser gay como o maior dom que Deus me deu". 
é claro, homossexual "pola graça da deus". parece os muçulmanos, que não dizem uma frase sem meter deus ao barulho. 
é bom de ver que deus, eu e mais uns tantos nos estamos nas tintas para a homossexualidade do senhor. 
mas...e se os heterossexuais anunciassem que são heterossexuais com muito orgulho e graças a deus? "se deus quiser", não irá ser preciso. inch' Allah.


terça-feira, 28 de outubro de 2014

ficar calado e aguentar

é difícil escrever qualquer coisa que não meta política. 
só um ser etéreo e alado, liberto das preocupações mesquinhas que assolam o ser humano, se pode dar ao luxo de ignorar a política, sobretudo no que ela tem de mais desprezível: a arrogância e o desdém pela sorte das pessoas, o desprezo pela felicidade e bem-estar dos outros, a fanfarronada do interesse dos mercados, a salvaguarda dos mais poderosos, o tratar das pessoas como números, como números que podem encolher até ao infinito.
é difícil escrever qualquer coisa que não meta desta política. 
mas mais difícil ainda é ficar calado e aguentar.