sexta-feira, 6 de março de 2015

a "reforma e a desinstitucionalização" psiquiátricas em Portugal

um estudo recente de Filipa Palha aponta inúmeras inconsistências, incongruências e desigualdades no processo de "reforma e desinstitucionalização" psiquiátricas em Portugal. 
não sei muito mais do que diz o estudo e também não vou perder muito tempo com ele. mas que o processo de "reforma e desinstitucionalização psiquiátrica" em Portugal foi uma pessegada austeritária, isso foi. 
que hoje não há camas suficientes para "agudos" e que os "crónicos" estão por aí bem escondidos em instituições desvocacionadas e desequipadas, longe da vista dos curiosos, isso é. 
e que se eles descompensam não há onde os meter, também é verdade. 
e que é cada vez mais perigoso ser doente mental em Portugal, é. 
e tudo isso porque quanto mais barato melhor, que uma reforma e desinstitucionalização psiquiátrica sérias "custam muito dinheiro". 
não importa saber se o custo é menor que o benefício. ninguém está para fazer essas contas. toca a desinvestir, toca a cortar, toca a desmantelar, toca a destruir. é essa a cultura atual. 
e os doentes? doentes? quem quer saber disso?

domingo, 15 de fevereiro de 2015

democracia

a democracia é muito bonita. eu gosto muito da democracia. a democracia serve para a nossa alimentação.
se não houvesse democracia, roubava-se os trabalhadores e os reformados, esmagava-se a classe média com impostos, taxas e multas, e mandava-se para a rua, quer-se dizer, para a rua mesmo, todos os inúteis que não aguentassem os castigos e sanções económicas.
o que nos vale é haver democracia.
e é tão importante a democracia que o melhor é nem haver eleições, porque assim teremos democracia para sempre.
esta democracia, claro.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

deus, religião e crueldade

é verdade que em nome de deus e da religião tem havido muitas guerras, muitas mortes e muita crueldade. 
mas as duas grandes guerras mundiais do século XX (guerras laicas), em que se matou mais gente que em tods as guerras anteriores, não foram feitas em nome de deus nem de nenhuma religião. 
o que quer dizer que as guerras, as mortes e a crueldade não são propriedade de deus nem das religiões, mas tão somente da loucura dos homena. 
é que podem mudar as bandeiras e os símbolos, mas a pulsão assassina permanece.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

vale mais deitar fora este país e fazer outro

é tanta a corrupção, tantos os braços do polvo, tantos os laços e atilhos, que já não há nada que limpe Portugal e o torne um lugar de respeito.
acho que o melhor é deitar fora este país e fazer um novo. de preferência com outro nome.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

a minha morte de deus

de todas as mortes com que lidei, a que mais me custou foi a morte de deus.
vivi com ele desde pequenino. via-o, ou melhor, imaginava-o, uma espécie de pai, bom quando me portava bem, mau quando me portava mal, nem bom nem mau quando me esquecia dele.
e assim vivi.
um dia, sem mais nem menos,disse-me:
- vais ter que te governar sem mim, estou muito doente. tenho o mal da inexistência.
- como assim, o mal da inexistência?
- eu, este que tu imaginas do fundo dos teus enigmas, não existo. posso ser outra coisa, mas não esse. posso ser tudo o que existe, um tudo de que tu fazes parte também. um tudo que existe desde sempre e jamais acaba, um tudo que se faz, refaz e desfaz e volta a fazer e a refazer eternamente. um tudo que é templo e geómetra de si mesmo.
e, subitamente, deixou cair a cabeça e desfaleceu.
fiquei órfão.
tentei acordá-lo, reanimá-lo, tentei negar a morte dele.
por fim, deixei que o deus de que ele me falou seguisse as suas próprias leis.


e, imerso nas leis desse deus, tive de começar por mim o meu Caminho.







segunda-feira, 3 de novembro de 2014

requiem

"requiem" quer dizer "descanso" e consiste num cerimonial e numa música destinada aos mortos recentes, acabadinhos de morrer ou mortos há poucos dias.
vem da ideia de que morrer é descansar.
infelizmente, é um descanso muito cansativo, como estar de férias mais de três semanas seguidas.
por isso, os mortos ao fim de trinta dias devem ficar fartos de tanto descanso.
digo eu.
e se virmos que se trata de um descanso eterno, a coisa torna-se uma condenação, uma pena perpétua propriamente dita. um inferno.


podia haver uns intervalos de vez em quando. uma espécie de jubilação com direito a fazer uns biscates. sempre era mais animado.
deus, vê lá isso...

sábado, 1 de novembro de 2014

publiciência

a velocidade a que a "ciência" produz artigos que alertam para os prodígios, vantagens e malefícios de muitos produtos, recursos, alimentos e até drogas tem a ver com a desnacionalização da produção científica, o desinvestimento público e o sistema de financiamento privado, ficando as universidades à mercê dos patrocínios de muitos mecenas interesseiros. 
assim sendo, o resultado da investigação é o pretendido pelos financiadores. a investigação deixa de ser ciência e passa a ser publicidade ou contra-publicidade. 
o fenómeno, que é particularmente evidente nas universidades americanas, ameaça estender-se e contaminar as universidades europeias, sobretudo depois da implantação do neoliberalismo e da sua querida "austeridade".