quarta-feira, 26 de agosto de 2015

o milagre

vendo-a pelo preço que me custou:

uma doente que me consulta pela primeira vez, após longos anos de sofrimento bipolar, conta-me que a última vez que tinha ido a um psiquiatra foi, alguns anos antes, na consulta externa de um hospital da especialidade, onde, inclusive, tinha tido vários internamentos. 
de acordo com a doente, visivelmente desativada e depressiva,  o psiquiatra que a observara ter-lhe-á perguntado:

- você acredita na Senhora de Fátima?
- acredito, sim - respondeu, convicta, a doente.
- então está curada! é milagre. já não precisa de mais remédios nem consultas.

não quis saber o nome do colega, para não ficar com o peso de saber demais. mas creio que a doente, alvo de várias mudanças de médico na consulta externa, também já não será capaz de recordar o nome dele.

sei é que, infelizmente, o milagre não deu resultado nenhum.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Europa e caviar

tal como o meu coração na caixa torácica, a minha posição política é de centro-esquerda. nunca provei nem tenho pressa de provar caviar. provavelmente, nem sequer me atreveria a prová-lo, porque não sou dado a "iguarias" bizarras. 
contento-me com a comida tradicional, cozido à portuguesa, carne de porco à alentejana, bacalhau com natas, sopa da pedra, caldo verde, caldo à lavrador, bacalhau cozido com batatas e grelos, bacalhau à Narcisa e à Gomes de Sá, pasteis de nata e queijadas de Tentúgal.
vem isto a propósito da maneira como se lê o que se está a passar na União Europeia. 
os caviares de esquerda e direita vociferam, cada qual para seu lado, com os seus modelos fora da realidade, uns porque demasiado assim, outros porque demasiado assado. os caviares de direita porque a culpa é da Grécia e dos gregos, os caviares de esquerda porque a culpa é da Alemanha e dos alemães.
é por demais evidente que as coisas não estão bem, que a União Monetária europeia deu um estrondoso berro. que é preciso voltar ao ponto de partida e construir uma União noutros pressupostos, uma União que seja imune aos jogos e tramoias dos especuladores bolsistas e capitalistas sem escrúpulos.
até porque não há nada que diga que os especuladores bolsistas e os capitalistas em geral tenham que ter escrúpulos.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

discurso otimista para Sua Excelência

saiba Vossa Excelência, senhor Presidente, que: 
apesar de todas as dificuldades, estou otimista, de um otimismo morcão. 
apesar do que vejo à minha volta, apesar das empresas e lojas falidas, apesar do desemprego dos jovens que não emigraram, estou otimista, de um otimismo tolo. 
apesar dos adultos e crianças que vivem e dormem nas ruas, estou otimista, otimista como um sapo. apesar do insulto que são os peditórios dos bancos alimentares, para gáudio e proveito das grandes superfícies, à custa do sentimentalismo dos babacas, estou otimista. com o otimismo de um nabo.
apesar dos cortes nas pensões para que contribuimos a vida inteira, estou de um otimismo bacoco.
bebi uns copos para me otimizar.
é servido?
chim-chim.



terça-feira, 9 de junho de 2015

a verdade

a verdade é um vício que se entranha em certas pessoas pouco imaginativas.
há que combater o vício.
esqueçamos a verdade.
sobretudo, nunca se deve dizer a verdade ao pé das outras pessoas.
podem apanhar o vício também.
e, além do mais, a verdade pode matar.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

o gato sagrado

no exame de Física é pedido aos estudantes que calculem a energia cinética de um gato em queda, salvo erro, de uma altura de oito metros.
um escândalo. não se admite uma coisa dessas nem por supônhamos.
ainda se fosse um velho de setenta anos, vá que não vá, tolerava -se, agora um gato, nem pensar.
a simples hipótese é inadmissível, um escândalo, a blasfémia por excelência.
aqui, no Estado Islâmico das redes sociais, só resta uma atitude: cortar o pescoço a quem teve a ideia de, num terrível exercício, fazer de um gato uma cobaia da matemática física.
não se admite.
é que um gato pode perfeitamente cair de uma altura de oito metros. mas só no real-real. no reino do real faz de conta, o Estado Islâmico das redes sociais não deixa.

longe vão os tempos da cantilena infantil "atirei cum pau ó gato-to-to, mas o gato-to-to não morreu-reu-reu. dona Chica-ca 'dmirou-se-se do berro, do berro co gato deu: miauuu!!"
mas bem sei que no Antigo Egito o gato era um animal sagrado, intocável, portanto.

o país melhor e os cofres cheios

21 de maio.
um homem foi presente a tribunal para primeiro interrogatório judicial.
perdeu o trabalho e a casa, tendo sido despejado.
abandonado e na rua, fez três assaltos com uma faca que trouxe da casa perdida.
entregou-se à polícia e confessou os crimes.
pediu que o levassem preso, já que não tem que comer nem onde dormir.
etc e tal, o país está melhor e os cofres estão cheios.

a herança

era uma casa em ruínas, num belo lugar da cidade.
as últimas habitantes, duas tias solteironas, já tinham morrido há que tempos.
foi saqueada e ocupada por imigrantes ilegais, a quem tiveram que mover ações de despejo, antes que, ainda por cima, viessem alegar usucapião.
a ruína sucumbia lentamente ao avanço das ervas, árvores, arbustos e bichos. era já mais um matagal do que uma casa propriamente dita.
chegou a hora do adeus, de decretar o fim, de assinar a certidão formal de um óbito recesso.
mais de vinte herdeiros foram dividir entre si os insignificantes despojos, a ridícula "herança".
foi-se a casa e a ruína, ficaram as memórias de quem as tem. e eu tenho muitas.
essa é a verdadeira herança, a que não pode vender-se nem apagar-se por um qualquer novo empreendimento em seu lugar.
adeus, casa do tio cónego!



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a casa ficava meio escondida num declive junto à estrada onde, naquele tempo, o elétrico subia numa chiadeira cansada. um belo dia, no elétrico viajavam o meu tio e um amigo, engenheiro, pessoa importante da cidade. diz o amigo para o meu tio:
- ó senhor cónego, a sua casa está mesmo escondida, quem vai de elétrico mal lhe vê o cume...
e o meu tio, sem pestanejar:
- ó senhor engenheiro, e quem vai de elétrico tem muita sorte, porque quem vai a pé nem o cu-me vê...