quarta-feira, 2 de setembro de 2015

os migrantes

somos uma cambada. 
há milhares de migrantes que morrem há meses nas ondas do mar Mediterrâneo. há milhares deles que morrem de fome, de sede e de cansaço desde o início das movimentações migratórias rumo à Europa. mas só agora está todo o mundo incomodado por causa do "Menino da Praia". 
um dia destes esquecem-se do "Menino da Praia", vem outra coisa mais chocante (um gato morto, um cachorro morto?) e pronto, lá fazemos de conta que nos incomodamos outra vez.
a situação é grave e não dá sinais de melhorar, de diminuir de gravidade, sequer. 
é preciso resolver os problemas das crianças, dos gatos, dos cães e também dos homens e mulheres adultos - que são afinal os que migram em primeira linha. 
é preciso compreendermos em que é que estamos metidos e por que razão nos meteram nesta situação, a nós, que os vamos receber, e a eles que querem ser recebidos. 
é preciso que quem os lançou na miséria e na debandada assuma a sua responsabilidade histórica. 
é preciso parar com a hipocrisia dos que atacam os traficantes de vidas humanas, como se não houvesse migração sem eles, como se por detrás da migração não estivessem os disparates bélicos "ocidentais" e os interesses inconfessáveis por detrás deles, como se, por último, os Estados estivessem preparados logisticamente para transportar e receber com dignidade todos os que querem vir. 
é preciso, sim, pôr fim aos traficantes, mas é preciso também - e, se calhar, primeiro - pôr fim áquilo que leva as pessoas a recorrer a eles. 
é preciso pôr fim às causas para poder pôr fim às consequências. 
é preciso agir com sabedoria e tino. antes que as novas hordas de migração deem cabo dos ovos de ouro que procuram nesta galinha europeia.

isto já aconteceu uma vez na história da Europa. era o Império Romano e algum tempo depois deixou de ser.


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

o milagre

vendo-a pelo preço que me custou:

uma doente que me consulta pela primeira vez, após longos anos de sofrimento bipolar, conta-me que a última vez que tinha ido a um psiquiatra foi, alguns anos antes, na consulta externa de um hospital da especialidade, onde, inclusive, tinha tido vários internamentos. 
de acordo com a doente, visivelmente desativada e depressiva,  o psiquiatra que a observara ter-lhe-á perguntado:

- você acredita na Senhora de Fátima?
- acredito, sim - respondeu, convicta, a doente.
- então está curada! é milagre. já não precisa de mais remédios nem consultas.

não quis saber o nome do colega, para não ficar com o peso de saber demais. mas creio que a doente, alvo de várias mudanças de médico na consulta externa, também já não será capaz de recordar o nome dele.

sei é que, infelizmente, o milagre não deu resultado nenhum.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Europa e caviar

tal como o meu coração na caixa torácica, a minha posição política é de centro-esquerda. nunca provei nem tenho pressa de provar caviar. provavelmente, nem sequer me atreveria a prová-lo, porque não sou dado a "iguarias" bizarras. 
contento-me com a comida tradicional, cozido à portuguesa, carne de porco à alentejana, bacalhau com natas, sopa da pedra, caldo verde, caldo à lavrador, bacalhau cozido com batatas e grelos, bacalhau à Narcisa e à Gomes de Sá, pasteis de nata e queijadas de Tentúgal.
vem isto a propósito da maneira como se lê o que se está a passar na União Europeia. 
os caviares de esquerda e direita vociferam, cada qual para seu lado, com os seus modelos fora da realidade, uns porque demasiado assim, outros porque demasiado assado. os caviares de direita porque a culpa é da Grécia e dos gregos, os caviares de esquerda porque a culpa é da Alemanha e dos alemães.
é por demais evidente que as coisas não estão bem, que a União Monetária europeia deu um estrondoso berro. que é preciso voltar ao ponto de partida e construir uma União noutros pressupostos, uma União que seja imune aos jogos e tramoias dos especuladores bolsistas e capitalistas sem escrúpulos.
até porque não há nada que diga que os especuladores bolsistas e os capitalistas em geral tenham que ter escrúpulos.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

discurso otimista para Sua Excelência

saiba Vossa Excelência, senhor Presidente, que: 
apesar de todas as dificuldades, estou otimista, de um otimismo morcão. 
apesar do que vejo à minha volta, apesar das empresas e lojas falidas, apesar do desemprego dos jovens que não emigraram, estou otimista, de um otimismo tolo. 
apesar dos adultos e crianças que vivem e dormem nas ruas, estou otimista, otimista como um sapo. apesar do insulto que são os peditórios dos bancos alimentares, para gáudio e proveito das grandes superfícies, à custa do sentimentalismo dos babacas, estou otimista. com o otimismo de um nabo.
apesar dos cortes nas pensões para que contribuimos a vida inteira, estou de um otimismo bacoco.
bebi uns copos para me otimizar.
é servido?
chim-chim.



terça-feira, 9 de junho de 2015

a verdade

a verdade é um vício que se entranha em certas pessoas pouco imaginativas.
há que combater o vício.
esqueçamos a verdade.
sobretudo, nunca se deve dizer a verdade ao pé das outras pessoas.
podem apanhar o vício também.
e, além do mais, a verdade pode matar.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

o gato sagrado

no exame de Física é pedido aos estudantes que calculem a energia cinética de um gato em queda, salvo erro, de uma altura de oito metros.
um escândalo. não se admite uma coisa dessas nem por supônhamos.
ainda se fosse um velho de setenta anos, vá que não vá, tolerava -se, agora um gato, nem pensar.
a simples hipótese é inadmissível, um escândalo, a blasfémia por excelência.
aqui, no Estado Islâmico das redes sociais, só resta uma atitude: cortar o pescoço a quem teve a ideia de, num terrível exercício, fazer de um gato uma cobaia da matemática física.
não se admite.
é que um gato pode perfeitamente cair de uma altura de oito metros. mas só no real-real. no reino do real faz de conta, o Estado Islâmico das redes sociais não deixa.

longe vão os tempos da cantilena infantil "atirei cum pau ó gato-to-to, mas o gato-to-to não morreu-reu-reu. dona Chica-ca 'dmirou-se-se do berro, do berro co gato deu: miauuu!!"
mas bem sei que no Antigo Egito o gato era um animal sagrado, intocável, portanto.

o país melhor e os cofres cheios

21 de maio.
um homem foi presente a tribunal para primeiro interrogatório judicial.
perdeu o trabalho e a casa, tendo sido despejado.
abandonado e na rua, fez três assaltos com uma faca que trouxe da casa perdida.
entregou-se à polícia e confessou os crimes.
pediu que o levassem preso, já que não tem que comer nem onde dormir.
etc e tal, o país está melhor e os cofres estão cheios.